A trágica história do Clube do Bang-Bang, fotógrafos que ousaram adentrar o caos

A trágica histórica do Clube do Bang-Bang relata momentos do trabalho de Kevin Carter, Greg Marinovich, Ken Oosterbroeck e João Silva.

Em 26 de março de 1993 a foto de um abutre espreitando uma menina debilitada pela fome estampava a capa do The New York Times. Ela fora tirada dias antes no Sudão, próximo ao centro de alimentação da ONU, pelo fotógrafo sul-africano Kevin Carter

“Um homem ajustando suas lentes para tirar o melhor enquadramento do sofrimento dela talvez também seja um predador, outro urubu na cena”, comentou sobre a própria obra o fotógrafo sul-africano Kevin Carter (1960-1994). A polêmica foto acima foi tirada em março de 1993, numa viagem ao sudeste do Sudão. Carter chegou com a intenção de documentar os movimentos rebeldes do país, mas o horror da fome e da miséria acabaram conduzindo seu trabalho.

“Eu estou depressivo… sem telefone… dinheiro para o aluguel… dinheiro! Eu estou sendo perseguido pela viva memória de matanças, cadáveres, cólera e dor…”

Da carta de suicídio de Kevin Carter

Em 27 de julho de 1994, ele ligou o escapamento de sua picape ao interior da cabine usando uma mangueira. Horas depois, à beira do rio onde Carter brincava quando criança, a polícia encontrou seu corpo no banco dianteiro da picape – morreu pela inalação de monóxido de carbono; no banco traseiro, um bilhete que continha o seguinte trecho:

“Eu estou depressivo… sem telefone… dinheiro para o aluguel…dinheiro para o sustento das crianças… dinheiro para as dívidas…dinheiro! Eu estou sendo perseguido pela viva memória de matanças, cadáveres, cólera e dor…pelas crianças famintas ou feridas…pelos homens loucos com o dedo no gatilho, mesmo policiais, executivos assassinos”.

A opinião pública, a hipocrisia e o remorso que se sentimos diante de nossa vergonhosa impotência – esses abutres – enfim tinham seu corpo; alimentaram-se da carniça, daquilo que fora Kevin Carter, o homem que mirou os olhos da miséria humana.

Junto a seus amigos Greg Marinovich, Ken Oosterbroeck e João Silva, Carter pertencia a uma geração de fotógrafos apelidada de Clube do Bangue-Bangue. O Clube ganhou fama e nome pela cobertura dos conflitos políticos e da violência do apartheid nos primeiros anos da década de 90, na África do Sul. De forma objetiva e contundente, eles apresentaram o horror que emanava de sua época, trabalhando em meio a conflitos e expostos a graves riscos.

A foto do ‘abutre’

Com sua foto mais famosa, Carter ganhou um Prêmio Pulitzer, um contrato com uma das mais prestigiadas agências fotográficas dos anos 90 e se tornou centro de grande controvérsia. Críticos começaram a questionar a atitude de Carter, que se limitando a tirar a foto e espantar a ave, não teria ajudado a criança.

Carter chegara ao Sudão para documentar os movimentos guerrilheiros locais. Contudo, a emigração de centenas e milhares de pessoas em busca de alimentação acabou atraindo sua lente. Ele contou que quando viu a cena ainda aguardou 20 minutos na expectativa de que a ave abrisse as asas; como nada aconteceu, tirou as fotos, espantou o abutre e partiu; não se teve mais notícias da garota.

Numa dessas expedições, Carter encontrou a criança da foto rastejando faminta até um campo de alimentação da ONU, a aproximadamente um quilômetro do local. O fotógrafo observou a garota, e percebeu um urubu a espreita. Ele diz ter aguardado até vinte minutos, esperando que o pássaro se retirasse. Como o urubu não saiu, ele procurou o melhor enquadramento, tirou a foto e açoitou o predador. Depois, partiu dali abandonando a criança da maneira que a encontrou.

A foto foi publicada pela primeira no The New York Times, em 26 de março de 1993. Imediatamente, a reação popular se manifestou. Cartas e telefonemas inundaram a redação do jornal americano, questionando o paradeiro da criança (até hoje desconhecido) e o comportamento do fotógrafo após conseguir a imagem. A situação era, no mínimo, paradoxal.

Se para grande parte do público o fotojornalista foi desumano, sádico e frio, por não intervir no sofrimento da criança, para a crítica especializada Kevin Carter merecia todos os cumprimentos pelo profissionalismo e objetividade. Ganhou o Prêmio Pulitzer por Fotografia, em 23 de maio de 1994, o mais importante prêmio jornalístico do mundo, ao mesmo tempo que sofria pressão popular e pessoal por sua foto mais famosa. “Essa foi a minha foto de maior sucesso, depois de dez anos como fotógrafo, mas não quero pendurá-la na parede. Eu a odeio”, declarou em entrevista a revista American Photo.

Herói engajado ou urubu predador?

Kevin Carter começou a carreira em 1983, fotografando eventos esportivos para o jornal Sunday Express, de Johannesburgo, maior cidade da África do Sul. Logo trocaria de jornal, e passaria a cobrir atrocidades políticas para o diário Star. Com os fotográfos Greg Marinovich, Ken Oosterbroeck e João Silva, reportou em imagens espetaculares a crueldade do apartheid, nos anos entre a libertação de Nelson Mandela (1990) e sua eleição como primeiro presidente negro do país (1994).

O quarteto recebeu o apelido de Clube do Bangue Bangue, pela coragem em expor a própria vida em busca de retratos do terror ao redor. O risco era alto. Oosterbroeck foi morto ao ser atingido por uma bala a queima-roupa, disparada por engano pelas forças de manutenção de paz, no subúrbio de Tokhoza. Marinovich precisou se submeter a sete cirurgias após ser baleado no peito, mas sobreviveu.

Em comum, os quatro – com exceção de João Silva, de Moçambique – cresceram em ambiente branco-burguês numa desigual África do Sul, e se mostravam desiludidos com o país, com a sociedade racista e com a existência em si. Marinovich declarou que vivia de registrar a vida dos outros para tentar esquecer da sua própria. Talvez por isso a tamanha coragem e frieza.

Mas nenhum dos outros membros do Clube Bangue Bangue imaginaria um fim tão trágico para Kevin Carter. Após a foto que o tornara conhecido mundialmente, o fotógrafo começara a abusar exageradamente das drogas, e vivia reclamando da falta de dinheiro, da depressão e da enorme culpa. Enfim, no dia 27 de julho, dois meses depois do auge profissional com o Prêmio Pulitzer, Carter dirigiu até perto de um rio onde brincava quando era criança, amarrou uma mangueira de jardim no cano de descarga de sua picape, inseriu a outra extremidade na cabine do motorista, trancou-se, ligou o motor e começou a escrever uma carta de despedida, enquanto era asfixiado pela inalação de monóxido de carbono. “Eu estou realmente arrependido. O sofrimento da vida é tão grande que a alegria já não existe mais”, escreveu em um bilhete encontrado no banco traseiro.

Seus colegas receberam a notícia do suicídio com irritação, e passaram a defender Carter ao público, ressaltando seu profissionalismo e tentando explicar mais uma vez a ocasião da foto. Segundo eles, os fotógrafos recebiam a recomendação para não tocar pessoas na África, sob o risco de contágio. Marinovich, depois de algum tempo, disse que também vivia atormentado com as imagens perturbadoras que ele próprio captara. A ideia de suicídio rondava sua mente frequentemente, e que certa vez quase se atirou nas águas do rio Danúbio.

O fato tomou grandes proporções, sempre dividindo opiniões. Em 1996, a banda do País de Gales, Manic Street Preachers, conhecida por seu comportamento radical e declaradamente socialista, ironizou a atitude do fotojornalista com a canção “Kevin Carter”, do álbum Everything Must Go. O documentário The Death of Kevin Carter: Casualty of the Bang Bang Club [A Morte de Kevin Carter: O Desastre do Clube Bangue Bangue] recebeu uma indicação ao Oscar em 2006. O filme Amor Sem Fronteiras (2003), estrelado por Angelina Jolie, recria em cena a imagem da foto captada por Kevin Carter.

A história do quarteto virou livro, escrito pelos sobreviventes Greg Marinovich e João Silva. “O Clube do Bangue-Bangue”, lançado no Brasil em 2003, pela Cia. Das Letras, é um relato dos dilemas éticos que o quarteto constantemente passava. Um dilema que o jornalista deve estar sempre disposto a enfrentar. Segundo Marinovich: “Tragédias e violência certamente geram imagens poderosas. É para isso que somos pagos. Mas cada uma dessas fotos tem um preço: parte da emoção, da vulnerabilidade, da empatia que nos torna humanos se perde cada vez que o obturador é disparado. Evidente que em grau maior, trata-se da mesma banalização que nos acomete ao olhar os jornais diariamente: há abismos demais.”


Comments

Uma resposta para “A trágica história do Clube do Bang-Bang, fotógrafos que ousaram adentrar o caos”

  1. Avatar de Marcio Pinheiro
    Marcio Pinheiro

    Poderoso e apavorante o poder de atração recíproco entre o abismo e as pessoas. Texto primoroso, história impactante, parabéns!

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