A culpa e a responsabilidade pela derrota da centro-esquerda ao Senado

Somos tentados a apontar o dedo e procurar o culpado quando um plano traçado não é alcançado, e somos ainda mais lançados aos impulsos emocionais quando vislumbramos um culpado que nossa mente capta como sendo fraco e/ou sozinho. Dito isto, é fácil compreender o por que do PT tentar vender que Rafael Motta (PSB), que…

Somos tentados a apontar o dedo e procurar o culpado quando um plano traçado não é alcançado, e somos ainda mais lançados aos impulsos emocionais quando vislumbramos um culpado que nossa mente capta como sendo fraco e/ou sozinho. Dito isto, é fácil compreender o por que do PT tentar vender que Rafael Motta (PSB), que não tinha palanque ao Governo sustentando sua postulação, é o culpado pela derrota da esquerda na única vaga disputa na senatorial de 2022. De fato, Motta, que precisava de densidade eleitoral para vencer, não alcançou conhecimento popular suficiente para triunfar contra duas máquinas, do Governo Federal e Estadual, que tinham suas candidaturas postas. No entanto, não se pode imputar a Rafael a culpa pela derrota da centro-esquerda. Se é algo que o deputado não tem no resultado desta eleição, é a culpa pela vitória de Rogério Marinho (PL).

A responsabilidade, não a culpa, porque não coube a governadora Fátima Bezerra (PT) executar a campanha de Carlos Eduardo (PDT), é da governadora. E a culpa pela vitória de Marinho vai justamente para o colo do candidato escolhido pelo petismo, o ex-prefeito natalense, que foi empacotado como ‘novo trabalhista’. A governadora tem responsabilidade porque escolheu mal seu companheiro de chapa, deu um passe eleitoral que Eduardo não tinha (leia outro artigo sobre esse tema aqui). Principal liderança potiguar, a governadora, que com uma habilidade ímpar conduziu a pré-campanha e a campanha ao Governo do Estado a seu bel-prazer, falhou naquilo que é comum a políticos, pensar que acordos firmados entre ex-adversários serão facilmente digeridos pela massa eleitoral.
Fátima chamou um senadorável que carregava uma alta rejeição do eleitorado lulista, de sobretudo, do lulismo do interior, que é mais lulista do que o estado como um todo. Com 2018 estando latente na memória, onde Carlos Eduardo apoiou Jair Bolsonaro (PL) no 2º turno, a massa lulista de pronto já o rejeitava. Cabia então ao candidato ter a mesma habilidade ímpar que Fátima teve na disputa ao Governo, mas o pedetista sequer conseguiu a habilidade, que mesmo não estando conjugada com o adjetivo ímpar, já seria um feito e tanto para um nome que tinha um alto desgaste político fora da Grande Natal.

Podendo ter escolhido Rafael para formar chapa, um nome que facilmente tendia a ser aceito pelo eleitorado lulopetista, Fátima o preteriu por Carlos Eduardo, que precisava executar uma campanha com uma estratégia qualificada para superar os vários desafios que já lhe apareciam de ponto de partida, no entanto, botou em ação uma das mais atabalhoadas estratégias da história política estadual recente. Eduardo não tinha do que se queixar, conseguiu na reta final o pedido de voto de Lula (PT), mais empenho de Fátima Bezerra, apoio de várias centrais sindicais e movimentos sociais e apoio explícito da nominata da Federação Brasil da Esperança, comandada pelo PT. Numa das corridas senatorial mais confusas para o eleitorado norte-rio-grandense, nas últimas semanas que antecederam o pleito, cruciais para uma eleição, Carlos teve a seu favor ativos que enfim poderiam suplantar a desconfiança perante o lulismo, mas sua inabilidade foi tamanha, que nem mesmo dois terços dos votos de Lula, que resulta em 42%, dos 62,98% da votação que o petista teve no 1º turno, o pedetista conseguiu conquistar. Os 42% eram o necessário para bater Rogério, que obteve 41,85% dos votos válidos. Entra na cota de Carlos a culpa pela sua própria derrota.

Numa corrida de três vias, o vencedor precisava apenas de uma pluralidade de votos para sagrar-se senador, coube a Rogério lograr tal êxito. Desconhecido do povão, Marinho precisava manter o terço de votos que Bolsonaro teria, o presidente teve 31,02% no 1º turno, cruzando o percentual com uma pequena parcela de votos lulista, que viriam de sobremodo do interior a partir do apoio dos prefeitos. O que para muitos era impensável resultou no que as urnas referendaram. Numa disputa com pouca nitidez, onde o principal candidato da centro-esquerda não conseguiu reverter a ojeriza popular a seu nome, o pouco conhecimento acerca de Marinho trabalhou a seu favor, o eleitor lulopetista que depositou o voto em seu nome não sabia que o relator da reforma trabalhista apoiava Bolsonaro. Isso somado a enorme estrutura política e econômica que o candidato do PL desfrutou, ao que indica fruto de abuso, como vem apurando a Justiça Eleitoral e órgãos de controle, foram os fatores que selaram a vitória de Rogério num estado altamente lulista.

Mas sob Marinho paira um medo inconfessável, sem Bolsonaro na Presidência, as investigações de abuso por sua conduta no uso da máquina pública não sofrerão interferência do Planalto, o pesadelo do senador eleito é que as denúncias de abuso sejam julgadas pelo Plenário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Há um caso recente de cassação que acende o alerta no bolsonarista. Em 2019, Selma Arruda (PODE), senadora pelo Mato Grosso, teve diploma cassado por uso de caixa 2 em sua eleição de 2018, o TSE determinou uma eleição suplementar a ser realizada em 2020, que culminou na vitória de Carlos Fávaro (PSD).


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