A ponte de um homem só

Crônicas de personagens e fatos da vida cotidiana, a maioria das vezes quase bem-humoradas. Leia a crônica deste sábado clicando no link!

As tragédias são portentos fascinantes, difundem-se à velocidade do som e são mais viciantes que açúcar. José Roberto Queiroz Martins, 34 anos e menos de 5 arroubas, soube disso. Em 3,3 segundos atingiu uma velocidade superior aos 100 Km/h, chocando-se à superfície líquida num impacto de 3,5 toneladas. E entrou pra história como primeiro suicida da Ponte Newton Navarro.

Se ele cometeu suicídio ou não, pouco importa à história. A história não se atém aos fatos, apenas alguns jornais deles ainda se ocupam. E não me venham os historiadores agora reivindicar sua imparcialidade e a eficiência de seus métodos científicos. A história também não lhes dá ouvidos. O fato público, a verdade que perpassará gerações é que José se perguntou E agora, pra onde? e pulou.

José provavelmente não era filósofo de profissão, o que torna mais difícil adivinhar-lhe os últimos pensamentos. Seu gesto irredutível oportunizou a um acadêmico demonstrar suas habilidades, traçando o perfil da queda que saiu no Jornal de Hoje e foi reproduzido no começo desta crônica. O repórter bem informado pode acrescentar que em outras obras monumentais – como a Golden Gate – houve também suicídio na inauguração. Alguma alma vaidosa que estivesse presente no momento de se cortar a fita ficou enciumada desse Zé Ninguém que roubou a cena.

Mas José, que não chegou a viver esses momentos, os anteviu, certamente. Porque se há alguma noção presente no juízo de um suicida é a da causa-efeito. Pulando, sabe que morre. Morrendo, soubera que viraria assunto. As possíveis versões a se multiplicarem sobre seus motivos surgirão na certa. Aqueles que lhe fizeram mal sentirão culpa, remorso. Os que de sua determinação duvidaram se ajoelharão, agora devotos. Contudo, talvez – e apenas talvez – José não pensasse em nada disso. Talvez ele ouvira falar na ponte que ligava o presente ao progresso. Entusiasmado, precipitou-se rumo à outra margem, distante de seu presente absurdo e infeliz. Por algum milagre, talvez por ser muita a fé de José, ao meio da ponte abriu-se magicamente a visão do futuro. Apenas para José, foi possível vislumbrar o progresso, o porvir de sua gente, de sua terra. Talvez – e apenas talvez – tenha sido nesse momento que a fé de José acabou e que entre voltar ao presente e seguir ao progresso, José preferiu pular.


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