Chega de saudades

Crônicas de personagens e fatos da vida cotidiana, a maioria das vezes quase bem-humoradas. Leia a crônica deste sábado clicando no link!

Há pouco, escrevi uma reportagem – ou seria artigo? – sobre o ano de 1968, a juventude e as mudanças. As revoltas de Paris, no celebrado maio, e o recrudescimento da ditadura no Brasil com a imediata reação de nossa juventude são temas fascinantes, apesar dos contornos trágicos de ambas as experiências.

Contudo, não pude evitar sair da celebração à antiga rebeldia e entrar no debate clichê da década: o fim da rebeldia juvenil. Um amigo disse – certa vez – que sua geração, nascida na década de 60 e – portanto – em plena atividade nos anos finais da ditadura e no princípio de nossa débil democracia, era opressora em relação à minha, nascida em 80. Falou de gostos, sobretudo música, que permanecem e se impõem como padrão de qualidade em detrimento do que é produzido hoje.

Ele tinha razão. E um dos aspectos mais cruéis da ditadura sobre nossa geração é a ampla aceitação da idéia de sermos apáticos e acomodados. É tanto mais cruel quanto se torna maior a aceitação dessa idéia por nós mesmos, os filhos de 80. Pois foi esse o rumo que dei ao artigo – reportagem? – que fiz pra revista. Não admiti nenhum saudosismo, ainda mais de uma época que não vivi.

Ao ler a reportagem – artigo? – um amigo me trouxe de meu texto presunçoso de volta à realidade. Disse: “Rapaz, você tem toda razão. Não podemos aceitar esse fado de sermos inferiores. Veja a geração de 60: criativa, ousada e determinada. Não eram uns merdas como esses que nos tornamos”. Ouvindo-o, pensei: de fato, aquilo que era época, ô saudades dos tempos que não vivi e sobretudo das pessoas que não conheci!


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