Como numa canção de roque

Crônicas de personagens e fatos da vida cotidiana, a maioria das vezes quase bem-humoradas. Leia a crônica deste sábado clicando no link!

O cara era um sujeito muito radical, na acepção mais simples da palavra. Em muitos outros aspectos era igualmente simples. Com ele era preto no branco. Era a velha e suja capa preta na pele muito branca; pele branca que ele dizia conter alma 100% negra, na rasgada camiseta preta com letras brancas.

Andava sempre com meia dúzia de colegas punk’s e uma ou outra moça, limpa e cheirosa. Alguns deles carregavam mochilas minuciosamente desleixadas, de marca e caras, recheadas de aparelhinhos eletrônicos de última geração, livros cheirando a novo e com bela encadernação (Bakunin, Kropotkin, Tolstói, Proudhon, Trótsky e até Marx lá estavam). Mas nosso personagem era diferente, uma espécie de franciscano do movimento punk, ele não ostentava.

Sua atitude perante os demais era de certa condescendência. Não recriminava abertamente o comportamento dos outros, mas não o reforçava. Falava sempre com certa tolerância, que lhe projetava charmosa superioridade moral sobre seu meio. E apesar dessa postura tranquila no debate, era contundente na hora da ação, sempre entre os primeiros na hora do vamos-ver.

Foi assim que liderou a rebelião anarco-punk da ETFRN quando outro grupo de adolescentes desfraldou a bandeira de sua entidade estudantil dentro da escola. “É um ataque à liberdade de cada um de nós, os stalinistas querem tanger os estudantes como gado”, foi o que disse aos colegas. A bandeira foi alvejada com fétidos ovos, após longa semana de preparação. Ele passava os dias na praça da ETFRN debatendo, combatendo os pensamentos autoritários e pregando a liberdade de pensamento, de comportamento – a “liberdade incondicional”.

Na época – cheio de espinhas e com tantas certezas quanto nosso personagem – pouco me interessava por ele ou suas ideais. Também jamais apreciaria – como apreciei recentemente – a sugestão de um querido professor que me levou a ouvir uma banda chamada Jethro Tull. Mas com o tempo e o tédio, passei a alimentar certa simpatia pela atitude desafiadora daquele jovem punk e seu descaramento, e também por roque. Cheguei a ter certa admiração por ele. E adorei conhecer a banda inglesa e pesquisar suas músicas no You Tube.

Depois de anos, fiquei surpreso ao reencontrá-lo. Sua pele continua branca, mas agora bem lavada. O terno que veste é todo preto; a camisa branca, ensacada; em baixo do braço, onde desfilara Kropotkin, uma bíblia com capa de couro (ou seria agenda comercial?); riscos de suor escorrem por onde houve – há tempos – uma respeitável costeleta.

Propus entrevistá-lo, mas estava com pressa e não podia falar – ou não quis. Saí em busca de informações sobre ele junto aos remanescentes de sua tribo juvenil. Mas não sabia seu nome e ninguém lembrou-se dele pela descrição que forneci. Soube de outros que entraram pra igreja e agora depõe sobre como eram escravos do diabo, promíscuos e viciados; ou agora possuem filhos, esposas e trabalho; ou enlouqueceram.

Não pude ter certeza sobre qual fim foi o seu. Fiquei apenas com aquela imagem na cabeça: um homem de meia-idade, andando sofridamente sob um sol muito forte, vestindo roupas formais que só aumentavam o calor que sentia. Talvez o velho rebelde estivesse ali; havia um mal-estar em seu olhar, mas podia ser apenas o calor.

Quanto à banda (minha outra descoberta), sua melhor canção fala de um homem “velho demais para o Rock’n Roll, jovem pra morrer”. Não parei mais de pensar nela.


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