Crônica: Diário de viagem – Portalegre

Convite pra uma conversa com blogueiros na cidade de Portalegre, região serrana do estado do RN. Que diabos um mala como eu tem a dizer pra ninguém? Mas os caras são adultos; se querem que eu vá, se eu até topo ir – que seja. Afinal, era um grande amigo quem insistia há anos pra que fôssemos conhecer a região.

A mulher separava a roupa, enquanto eu, os comprimidos. Flunarinazina, Diazepan, Captopril e inibidores de serotonina. Tomei um de cada com conhaque, pra aguentar o tranco da viagem – odeio viagens. Liguei pro táxi.

Ainda na rodoviária comecei a me arrepender. Que lugar desagradável. Por sorte o ônibus chegou logo e logo partiu.

A viagem não foi tão ruim quanto esperava. A reserva de conhaque no bolso do casaco ajudou muito. Fiquei olhando as estrelas pela janela, tentando me orientar como os antigos. Mas as constelações pareciam que tiraram o dia pra se mover mais rápido – o céu é o limite.

3h30 e o ônibus estava numa das piores estradas que já vi em minha vida, no sertão da Paraíba. Em plena escuridão, pessoas já passavam carregando leite, indo ao trabalho e levando meninos ao arrasto, talvez pra escola. Provavelmente aqueles vagabundos desocupados que recebem o Bolsa Família, como diz o pessoal da universidade. 5 e pouco desço em Riacho da Cruz, donde se divisa a serra.

A cabeça doía da noite sem dormir, apesar da ajuda de uns comprimidos extras e do finado conhaque – que foi mijado numa cidade de nome tão comprido que me esqueci; deus o tenha! Meu amigo e o anfitrião Edielson, que logo se tornaria outro amigo, nos esperavam. Subimos a serra.

Já nos primeiros quilômetros fui sentindo a camisa desgrudar do corpo, a cabeça ia ficando mais arejada à medida em que subíamos em relação ao mar. Quando chegamos, estava novo.

Fomos hospedados numa beleza de pousada – Boa Vista, aliás, belíssima – e nos levaram pra tomar um baita café num lugar charmoso de nome apropriado: Pão Nosso. Depois fomos conhecer alguns pontos turísticos da cidade. A bica, as cachoeiras me lembraram muito das viagens que fiz a Chapada dos Guimarães, o mesmo encanto rústico, o mesmo clima agradável – parecidos, guardadas as proporções.

No almoço, fui comer no restaurante do mirante, que fica em frente à pousada – também se chama Boa Vista. Só pela paisagem valia pagar pra comer ali. Mas quando comi a famosa Surpresinha da Serra, que é a especialidade do lugar, já pensava em largar a droga do meu emprego e me mudar praquele lugarzinho esquecido e tão fantástico. Acreditam que os caras têm wi-fi em todo canto: na pousada, no restaurante, no outro onde tomamos café. E grátis. As pessoas são educadas e limpas; não jogam lixo nas ruas. Os motoristas respeitam os pedestres. Todos são corteses. Que estranho lugar.

Meu amigo me arrumou uma moto e tratei logo de aprender a usá-la. A primeira coisa que fiz foi pegar aquela possante máquina de 125 cilindradas e acelerar o que pude em direção às brenhas, tomando o cuidado de sempre dobrar à direita pra saber voltar. Quando cansei, quase derrubei a moto pra tentar dar a volta; desliguei a danada, fiz a manobra e acelerei o que pude. Quase que não chegava mais à pousada.

Só fui me lembrar que não tomava meus seis comprimidos diários no terceiro dia. Foi assim: muito confiante, pus a mulher na garupa e acelerei; meia hora depois, vi outra moto vindo num cruzamento; pensei: freie; e acelerei. Quando fui ver minha esposa arremessada e a condutora da outra moto no chão, o coração começou a palpitar, o peito a doer – eu me sentia dentro de um banco.

Por fim, gastei mais com as motos que com toda viagem. Felizmente ninguém se machucou gravemente. Logo depois me pus diante da seguinte situação: ir embora com medo de moto ou encarar a morte? Peguei a moto do Sobrinho e atravessei a cidade. Numa reta vazia, acelerei o que pude, soltei as mãos e berrei foda-se. Como tive tempo de repor as mãos no guidão, desacelerei a moto e fiz o resto do percurso com mais cuidado que nunca. Pensei comigo: acabaram os tempos de aventura.

Minha estadia em Portalegre passou rápido. E foi uma maravilha. Num domingo à noite, nos levaram até Riacho da Cruz pra pegarmos o ônibus de volta à Natal.

Dentro do ônibus, a surpresa: todas as cadeiras ocupadas e umas dez pessoas em pé. Perguntei pra várias delas. Aquilo era rotina em épocas de grande fluxo. Fomos, a patroa e eu, em pé por uns 100 quilômetros, até que uma senhora lhe cedeu o lugar porque desceria na cidade a que chegávamos. Me encostei na poltrona de um cara um pouco acima do peso, com um bigode mexicano, raros fios de barba compridos, camiseta regata e bermuda de surfista. As pernas e eu tentava dividir o peso do corpo de tempo em tempo entre elas, com o apoio das costas que pressionavam a poltrona. E o ônibus sacolejava.

De repente sinto umas catucadas nos rins. Era o sujeito do bigode. Vai descer, pensei. Ele disse: ei, dá pra se desencostar da minha cadeira. Devia ter enfiado meus dedos em suas cavidades oculares e arrancado os globos para espremê-los como pitomba até que estourassem. Mas apenas obedeci. Duas filas mais pra trás, pensava comigo: a serra foi o sonho.

Desci em Natal perto das 6h. Na parada de ônibus, um comerciante jogava na calçada uma água podre; pessoas dormiam nos bancos, cobertas por papelão; o mau cheiro vinha de toda parte. Uma besta parou e seu cobrador começou a berrar. Minha cabeça doía. Tomei dois de cada comprimido que tinha na bolsa e saí atrás de um copo de conhaque.