O caminho das flores

Crônicas de personagens e fatos da vida cotidiana, a maioria das vezes quase bem-humoradas. Leia a crônica deste sábado clicando no link!

Ontem – um dia antes do prazo -, deu-se a missa de 7º dia de Dudão, o defunto juvenil de que falei na crônica anterior. Mas não foi uma missa exclusiva. Nosso personagem dividiu as honrarias com um defunto aniversariante, um casal de outra localidade – com parentes aqui – que foi vítima de acidente automobilístico, um padre mais dezenas de católicos mortos no século XVII e com outro rapaz, este encontrado morto pela manhã, à beira do mangue. Some-se a isso uma moça em seus 25 a 30 anos, que tentara suicídio dois dias atrás, por saber-se corneada, e que agora pranteava em desespero na primeira fila de bancos da igreja, ofuscando o sofrimento alheio. Eis a missa de 7º dia.

Vocês me perguntarão por que não falo do novo óbito – por exemplo -, em vez de reprisar Dudão? Simples. Dudão tornou-se célebre. Perguntam-me por ele na rua, na universidade, no trabalho. Enquanto o novato sequer tem nome, não apareceu nos noticiários, não teve quem lhe chorasse. Portanto, pouca esperança de comentários.

Com efeito, voltemos a Dudão.

Igreja perto de cemitério, providenciou-se uma visita à cova, após a missa. Vejam agora porque escolhi o morto certo pra esta crônica: a mãe do homenageado mostrou-se novamente possuidora de um inintimidável pulmão. O berreiro foi tamanho, que só cessou com a mulher desmaiada. Tanto que tiveram de ser os acompanhantes a por o arranjo de flores sobre o túmulo, que a senhora nem isso pode.

Feito numa funerária das redondezas, o arranjo tratava-se de doze rosas vermelhas envoltas de uns matos parecidos com trigo, tudo embalado num belo e brilhante plástico rosa com vistosa fita vermelha enlaçada. Isso mesmo, plástico rosa e laço vermelho. Reafirmo e explico: em terras pobres como essa, só se compra flores pra pedir perdão por chifre ou por loucura de amor. Assim, arranjos de flor pra namorados é a maior pedida em nossas funerárias. É claro que este equívoco poderia ter sido evitado, caso o vizinho da mãe em questão tivesse esclarecido à atendente da funerária – quando ligou-lhe, fazendo à primeira um favor – que as flores se detinavam ao defunto da semana passada. Mas não teve a delicadeza.

Hoje pela manhã, quem – ciente da história até aqui transcorrida – observou o túmulo de Dudão, pode verificar a mais recente vilania de que sua mãe – destituída de um filho – fora vítima. O belo e constrangedoramente romântico buquê não se fazia presente. Poucas horas após o desmaio da matrona, pode-se ver que as preces de alguém foram atendidas. Por sinal, as de quem melhor soube defender a sua dor. A nossa suicida veio fechar a cortina, e pelos vultos via-se ela abraçar o homem amado, como se este tivesse se desculpado, levando-lhe lindas rosas vermelhas.


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