Passeio matinal

Crônicas de personagens e fatos da vida cotidiana, a maioria das vezes quase bem-humoradas. Leia a crônica deste sábado clicando no link!

Na primeira parada, sobem no ônibus cinco pessoas a mais que o combinado. Na segunda, são três os excedentes. Oito, oito, cinco, seis e assim sucessivamente vão subindo em excesso os passageiros no lotação Zona Norte – Centro. Há, dentre os mais leves, aqueles que estão suspensos, com os pés a um palmo do chão, comprimidos entre barrigas e embrulhos. Num calor dos diabos, a massa compacta, cada vez mais compacta e mais massa. O ônibus arranca, freia, acelera sôfrego e lentamente retoma velocidade. Rasteja o ônibus pelas ruas, cambaleia nas curvas, sacode, vai e vem, lento, vai e vem. A mulher gorda da sacola laranja caiu numa cadeira que ficou vaga. Curva pra direita, a mulher e a sacola laranja pra esquerda. Curva pra esquerda e agora elas pendem pra direita. A cadeira da sacola laranja (aliás, enorme sacola laranja) e da gorda é virada pra trás. O estudante cafunga e coça o nariz. Cheirada de pobre é menos estimulante, a cocaína do estudante é o sovaco do pastor. A sacola caiu, mas a gorda ficou onde estava. O ônibus acelera, arqueja e enfim anda. O estudante continua cheirando. A mulher de chapinha nos cabelos tem nos braços muitas sacolas e muitas crianças. A mulher gorda balança. As muitas sacolas da mulher de chapinha têm quase o volume da sacola laranja e sua carregadora gorda. Na última parada, o incremento populacional do lotação fez com que o estudante não tivesse onde por os pés. Ele acha que está nos ares por conta do sovaco do pastor. O sovaco sua, pinga e alega inocência. A culpa é de uma certa lei da física. A quarta criança, da direita pra esquerda, chupa um picolé vermelho, o da terceira é azul. As outras crianças não chupam nada, não agora. O picolé azul insisti em pingar no sapato vermelho da mulher gorda. Ela toda balança de um lado pro outro do ônibus, exceto seus sapatos que permanecem imóveis para poderem ser pingados pelo picolé azul da terceira criança da mulher de muitas crianças e sacolas que agora arranca a orelha de uma criança, a primeira, com a mesma mão que segura metade de suas sacolas, das quais uma se arrebentou ou foi arrebentada, gerando, talvez, o arrebentar da infantil orelha. A gorda pende pra frente com a arrancada do ônibus e vê seu sapato empapado e cai pra trás quando o ônibus consegue arrancar. Sacolas passam por cima das cabeças e gritam Vai descer, Vai descer. A primeira criança, que chorava já ao subir no ônibus, agora chora dobrado, pois só escuta metade de seus gritos, suponho. A gorda me encara, meus deus, como é feia. Por sorte o carro vira e ela vai-se embora. Uma das sacolas voadoras cai. O pastor se abaixa pra pegá-la. O estudante cai. A mulher da chapinha está batendo na criança número quatro. A gorda sorri, ela está ficando azul. Gente tentando descer. O estudante novamente suspenso. Na parada vão subir uma mulher, dezoito sacolas, um marido, uma cunhada e uma criança com sorvete italiano de baunilha e chocolate. O ônibus freia e o estudante cai em cima da sacola laranja da mulher gorda que de azul ficou verde e pende pra direita e põe a cabeça entre o pastor e a sacola laranja e vomita cerveja preta e churros na frente da mulher de chapinha, nos pés da segunda criança que berra e derruba muitas sacolas e leva uns safanões da mulher de chapinha que puxa todos, crianças e sacolas, pra longe do vômito que fica no pé da catraca que é dessas muito baixas e exige que a criança deixe seu sorvete italiano de baunilha e chocolate com o cobrador enquanto se deita e se arrasta por baixo da catraca pra não pagar a passagem e se lambuza de vômito nas costas e se levanta rápido pois pai e mãe já rodam a catraca e pisam no vômito enquanto o cobrador devolve o sorvete à criança que se esfrega no pastor que agora espreme o sovaco na cara do estudante tentando se esquivar da menina que escorrega e derruba o sorvete no chão e leva um puxão de orelha exemplar e chora fazendo com que a primeira criança passe a chorar mais alto e derrubar com raiva o picolé da quarta que usa um gorro vermelho com bolinha branca, me esclarecendo tudo e anunciando a todos: é natal!


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