Quem crê em bruxas e quem as queima

Crônicas de personagens e fatos da vida cotidiana, a maioria das vezes quase bem-humoradas. Leia a crônica deste sábado clicando no link!

Primeiro arrancaram os bruxos de dentro de suas casas, sob tapas, chutes e golpes de porrete. Na rua, a multidão fez cerco e começou a atirar pedras, tocos e o que lhes viesse à mão. Sangrando, o par de bruxos implorava – artimanha ignorada pela população ensandecida e resoluta. Bastou que um primeiro bravo agisse pra que muitos o seguissem: a faconadas os bruxos foram mortos; seus corpos retalhados foram ali mesmo queimados. Homens e mulheres voltaram a suas casas e abraçaram seus filhos, cientes do dever cumprido. Era o final de novembro. Nas próximas semanas pelo menos outros 12 bruxos seriam acometidos da mesma justiça.

Não falamos da Espanha do século XVI, onde o sincretismo religioso era alvo do ideais purificadores da Santa Inquisição. Estes bruxos conheceram a justiça divina no Haiti, no Ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2010.

Segundo Truman Capote “de todo o Caribe o Haiti é sem dúvida o lugar mais interessante.” A religião oficial do país é o catolicismo, e nele subsiste o vodu, num sincretismo de dar orgulho a qualquer multiculturalista de corredor universitário. Capote também fala da religiosidade local: “num aparente esforço de conciliação, parte do catolicismo invadiu o vodu: uma imagem da Virgem Maria, por exemplo, ou do menino Jesus, por vezes representado por um boneco caseiro, enfeita o altar de quase todos os houngans. E a função principal do vodu não me parece diferente da função das demais religiões: invocar certos deuses e símbolos, apaziguar a pressões do mal, o homem é fraco mas Deus o protege, a magia existe no estrangeiro, os deuses a controlam, podem fazer com que a esposa de um sujeito engravide ou com que o sol torre a plantação…”.

Os supostos bruxos haitianos foram acusados de trazer pra sua região a epidemia de cólera que assola todo o país e já matou mais de 2 mil pessoas. Seu julgamento e execução sumários você já conheceu acima. Foram pelo menos 15 mortos.

O Haiti sofre com sucessivos golpes militares e guerra civil há décadas. Sofre com a miséria e a violência. Ainda foi vítima, em janeiro do ano passado, de um terremoto que alcançou magnitude de 7.3 na escala de Richter, deixando milhões de desabrigados. Foi neste contexto que o cólera proliferou.

Não é de hoje que o misticismo e a crendice buscam personificar fenômenos naturais e punir seus invocadores, quando negativos. Se fosse pra encontrar culpados, os haitianos poderiam olhar para as gerações de governantes e capitalistas que fizeram de seu país um dos mais miseráveis do planeta; mas o misticismo é antes de mais nada apolítico.

Em 2009, na Índia, 5 mulheres foram despidas, espancadas e forçadas a comer merda humana. Por quê? Eram bruxas. Parece que nas várias crenças, em todas as partes do planeta, há uma constante: a enorme preocupação com bruxas. E uma solução recorrente: queimá-las. Nesse pouco celebrado sincretismo, podemos ver que apesar dos séculos a Idade Média ainda vive entre nós.


Comments

2 respostas para “Quem crê em bruxas e quem as queima”

  1. Eu diria “governantes corruptos”. Desconfio que deva haver uma correlação maior da miséria do Haiti com a corrupção que com a forma de organização econômica do país. Pode-se observar esse “fenômeno” em outras praças.

    1. Realmente uma sociedade muito desestruturada, na política e em tudo o mais

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