Sobre meninos e cães

Crônicas de personagens e fatos da vida cotidiana, a maioria das vezes quase bem-humoradas. Leia a crônica deste sábado clicando no link!

O menino deu entrada no Hospital Walfredo Gurgel com febre alta, no meio da tarde. Delirava o menininho, quando fez-se a noite. Ah, quantas coisas indescritíveis passaram pela cabeça de nosso pequeno amigo durante aquelas horas; coisas que só são possíveis na cabeça de meninos sonhadores com febre alta; que não cabe a nós adivinhá-las.

Com certeza, nosso minúsculo protagonista – sim, tão jovem, e já protagonista – não se detivera a analisar as notícias que nos davam conta do superávit primário superior a 5% e dos decorrentes cortes na área de saúde e educação. CDB, RDB, flutuação cambial, TR, Taxa Selic e outras coisas que por ventura interfiram no preço do pãozinho francês felizmente não fazem parte do imaginário dos meninos, sobretudo dos meninos marrons com febre sonhadora.

Daquilo tudo que o canhão de elétrons projetara na tela, foram aqueles maravilhosos cães que detiveram sua atenção. Não que ele compreendesse o drama dos moradores de classe média do Jardins paulistano, aterrorizados com a onda de sequestro de cães em seu bairro. Como poderia um menininho marrom da Zona Norte de Natal compreender o drama da gente pálida dos Jardins, não é? Era para a pelugem daquele Husky Siberiano – há 4 meses desaparecido – que nosso protagonista anônimo voltava suas atenções.

Uma entrevistada – olhos marejados – protestava contra a insegurança que ronda a classe média e seus animais. Colérica, reclamava pelos altos impostos que foram pagos e que não garantiram a segurança de seu bem cuidado cachorro, assíduo frequentador dos melhores Pet Shops, muito amado que era, e é, nos garante, esperançosa. Alheio aos debates econômicos e tributários – sem pensar no porquê de não haver médico pra lhe atender – Marronzinho se retorce, seus olhos se reviram e embranquecem. Ele está num enorme campo; não sente mais fome, não tem mais febre; a bicuda senhora já lhe sumiu dos pensamentos; lá longe vem correndo o Husky, como ele, sem nome. No colo do pai desesperado, seu último pensamento foi para aquele cachorro lindo, que parecia um lobo bom de desenho animado.

Escrita para o caderno de economia da Revista Retroperspectiva


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