Tiroteio no Midway Mall

Crônicas de personagens e fatos da vida cotidiana, a maioria das vezes quase bem-humoradas. Leia a crônica deste sábado clicando no link!

Os rumores anunciam um tiroteio no shopping. Das escadas rolantes surge um homem de uniforme laranja que corre desesperado. Atrás dele, o séquito de concidadãos estabanados já é numeroso. Adentram as salas do cinema e somem da vista. Dentre os que ficam fora, surgem mil teorias e narrativas. Mães em pânico, diante do risco eminente. Crianças orgulhosas da coragem com que encaram a situação. E lá vai. Antes que um consenso sobre o ocorrido fosse possível, já voltavam correndo nosso herói laranja e seus papungus de procissão. Descem à praça de alimentação.

Faces severas, madames eufóricas e homens viris de celular em mãos, falando grosso e alto, sobretudo alto. Estranhos se confraternizando e trocando informações. Olhos arregalados procurando olhos arregalados, ainda que desconhecidos. Neste momento todos compartilham do entusiasmo engendrado pelos grandes acontecimentos. A gravidade da tragédia paira sobre tudo.

Rapidamente, a frustração se apossa das vozes e gestos do piso inferior. Ocorre que agora o murmúrio informa que um barril de chope estourou, causando o furdunçu. Alguns, ainda em êxtase, contam da extrema necessidade de carros blindados, cercas elétricas e outras providências. Os demais têm seu maior receio confirmado, nada acontece. Nada de surpreendente, que lhes movimente a vida enfadonha e fugaz, entre uma repartição pública ou empresa, um shopping ou spa. Todos, neste momento, dividem a mesma sensação. O tiroteio que não houve foi o acontecimento de suas vidas, ao menos hoje. Revelados, esperam ansiosos pelo dia em que algo acontecerá em suas vidas, mesmo que seja um tiroteio no shopping ou um sequestro relâmpago.

Esperam. Do mesmo jeito que espero pela minha sessão e que lá fora, milhões esperam pelo dia em que terão comida e poderão viver sem chacinas nem tiroteios. Porque todo dia de sobrevivência, para o pobre é um acontecimento. Porque tiroteio na frente da casa do pobre tem bala. Porque nas periferias não falta nem assunto, nem velório. Rico se diverte com medo de chacina no cinema e com assombração de sequestro relâmpago. Mas levar bala de verdade – fisicamente – é programa de pobre.


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