Um caju no espelho

Crônicas de personagens e fatos da vida cotidiana, a maioria das vezes quase bem-humoradas. Leia a crônica deste sábado clicando no link!

A propaganda contemporânea joga pesado suas fichas na exploração e até construção de identidades. Se você também é diferente, deve ter o mesmo carro que eu é apenas uma das muitas pérolas deste viés da publicidade.

Dentro dessa tendência, de tempos em tempos, vemos recrudescer na mídia local o ufanismo regionalista típico dos aculturados. É inegável que nosso estado possui uma expressiva identidade cultural, no entanto, os elementos dessa identidade estão longe da simplória e tacanha representação que tentam nos impingir.

A agressividade dessa unicidade simbólica forçada a que somos coagidos torna-se ainda maior se considerarmos a forte influência da televisão na formação da consciência coletiva. Tomando meu estado pelo que assisto, posso dizer que somos um povo exageradamente alegre, que como todo nordestino de comercial, adora sol e vive na praia. Nossa cidade é um fervente e exótico caldeirão cultural, de diversidades e tradição. Toda mulher tem bunda grande (quem dera! quem dera!) e usa pouca roupa.

Me surpreende como nos últimos tempos as propagandas – governamentais e comerciais – que são voltadas para o público nativo, se assemelham àquelas que se destinam a turistas. Começamos por vender uma imagem fantasiada de nossa pacata cidade. Acabamos por comprar para consumo próprio o pacote de estereótipos que antes vendíamos.

Aos poucos, já podemos notar os resultados dessa visão. Nosso comportamento muda – mesmo que lentamente – e acompanha aquele previsto na TV. Não podemos ver um turista que corremos prestar auxílio. Basta sairmos do estado que começamos com aquela cantilena do orgulho que temos das belas praias e do ar mais puro do mundo. Dia chegará em que nos olharemos no espelho e veremos um caju. Mas não um caju qualquer, um caju nascido no maior cajueiro do mundo.


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