Viúva Machado: uma papafigo potiguar

Manuel Machado era provavelmente o homem mais rico de Natal quando conheceu seu amor num hotel da antiga Ruas das Virgens (atual Câmara Cascudo, na Ribeira). A filha do dono, mulher de meia idade, austera e de discreta beleza, o cativou imediatamente; pouco tempo depois, estavam casados. Foram 31 anos de uma vida conjugal feliz,…

Manuel Machado era provavelmente o homem mais rico de Natal quando conheceu seu amor num hotel da antiga Ruas das Virgens (atual Câmara Cascudo, na Ribeira). A filha do dono, mulher de meia idade, austera e de discreta beleza, o cativou imediatamente; pouco tempo depois, estavam casados. Foram 31 anos de uma vida conjugal feliz, que não deixou rebentos. Em 1934, Manuel morreu. Foi nesse ano que sem o amado, sem filhos e já doente, Amélia Duarte – que fora feliz e amada – começou a desaparecer, para em seu lugar surgir a Viúva Machado.

Manuel deixou pra sua amada esposa uma fortuna que incluía a Dispensa da Cidade e vastos terrenos; contam que uma de suas propriedades se estendia de Salinas a Macaíba. Subitamente transformada numa das pessoas mais ricas de seu tempo, Amélia – que não possuía o tino pros negócios de seu marido – viu sua riqueza lentamente encolher; lento o suficiente pra que não ameaçasse sua posição, porém. Viu ainda crescer em seus concidadãos o desconforto com seu ascendente poder.
A provinciana capital do estado teve dificuldades em aceitar tamanho poder nas mãos de uma mulher, sobretudo uma mulher que não tinha suas origens nas tradicionais famílias. Amélia recebia poucas visitas e também pouco saía, por conta de sua frágil saúde. Não tinha filhos que lhe cuidassem dos negócios. E pra piorar, caíra na boca do povo.

Ressentida dos sussurros maldosos que sua presença despertava, passou a evitar completamente o convívio externo. Era cada vez mais raro quem deixasse com ela seus filhos, ou filhos que com que ela se deixassem ficar. Amélia vivia cada vez mais só.

Ela padecia de uma doença desconhecida, que seria responsável por fazer crescerem suas orelhas, dando-lhe um aspecto estranho. As pessoas começaram a especular acerca de motivações e decorrências de seu mal. Logo surgiam boatos de que seria castigo por seus pecados obscuros, mas não se dizia ao certo que pecados eram esses; que seria pactuante de acordo demoníaco, em troca de poder e riqueza.

Amélia gostava muito de crianças, e não as tendo de sua prole pra mimar, supria suas carências maternais com filhos alheios. Adorava ficar com crianças de amigos e parentes. A maledicência logo tratou de se apropriar deste fato.

Espalhava-se pela cidade que ela comia fígado de crianças pra controlar sua doença. Pelas ruas – nas poucas vezes que saía – era alvo da chacota e do medo da molecada. Sua casa – adjacente à Igreja do Rosário, na Cidade Alta – virou um local assombrado, evitado pelas crianças da região. Ressentida dos sussurros maldosos que sua presença despertava, passou a evitar completamente o convívio externo. Era cada vez mais raro quem deixasse com ela seus filhos, ou filhos que com que ela se deixassem ficar. Amélia vivia cada vez mais só.

Viveu ainda 27 anos, apontada nas ruas e mal-falada nas casas. Sem ver nem ser vista, Amélia foi definhando em lenta e solitária agonia. Não tinha mais o tão desejado convívio com crianças. Sua riqueza, não tinha a quem deixar. Pouca vida social e pouca saúde a desfrutar. Muito antes de morrer fisicamente numa quente noite de 1961, Amélia Duarte desaparecera, encerrada em si mesma. Em seu lugar surgiu a Viúva Machado, papafigo, espectro de uma mulher assustada – que fora feliz e amada.


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