De onde vem a força de Wendel Lagartixa?

Wendel Lagartixa está definitivamente no radar da disputa pela Prefeitura de Natal, ano que vem.

88 mil votos para deputado estadual em outubro. Quase 33 mil deles apenas em Natal. Como saldo o recorde histórico de votos para deputado estadual no RN e um deputado federal eleito de brinde.

Há quem ainda se surpreenda. Mas esse espanto deixará de ocorrer em breve, Lagartixa será naturalizado nos horizontes políticos potiguares.

De onde vem sua força?

Há toda uma questão de identidade que merece um perfil mais atento do político. Por ora, vamos nos concentrar nos aspectos que ligam essa imagem (antissistema, ‘linha dura’ etc) aos valores e fatores que na sociedade tornam Lagartixa um portento eleitoral.

Obviamente temos que falar em insegurança. Não apenas a real como a percebida. Vivemos em pânico com os crimes que ocorrem e com a expectativa pelos que virão. Em muitas comunidades de nossa cidade, garotas não pode andar nas ruas desacompanhadas. As cadeiras que costumavam invadir as calçadas no fim de tarde para embalar as fofocas diárias se recolheram, com medo. Os trabalhadores ficam alertas e ansiosos em suas paradas de ônibus, na hora de retornar para casa.

A insegurança não é apenas um fato explorado por políticos de direita, é uma realidade diária na vida da maioria da população. E a esquerda tem sido ineficaz em seu enfrentamento e – principalmente – na narrativa sobre suas políticas para a área.

Principalmente na narrativa porque o problema, de fato, também não encontra solução nos governos de direita, por mais à direita que sejam. Mas ele existe, incomoda e causa medo e ressentimento. Uma mistura perigosa dentro de uma cultura política messiânica como a brasileira.

Há ainda um crescente desconforto com o estado da representação política. Embora 2022 tenha aparentado uma mudança de curso, não creio que as instituições venham a gozar do atual prestígio por muito tempo. Isso porque elas não mudaram, não evoluíram.

“A gente perdeu por enquanto. Vai ter muita cena dessa novela.”

Wendel Lagartixa


Um amigo reclamava de um programa na Globo News em que o convidado, que falaria sobre ética na política, era o ministro das Cidades Jader Filho. Ele, o filho do senador Jader Barbalho (MDB-PA) e irmão mais velho do governador reeleito Helder Barbalho (MDB).

Um escárnio? Para meu amigo, sim. E provavelmente tem razão. As elites políticas, mesmo as de esquerda, ainda não encontraram respostas para a crise de legitimidade que, sim, persiste sobre o sistema representativo, no Brasil e no mundo.

Ignorando os sentimentos que se alimentam da desesperança e do medo, que geram ressentimentos cada vez mais sólidos, fica difícil entender a projeção de lideranças como Lagartixa. Mas basta sentar num boteco do Alecrim e puxar assunto sobre política. O que chamamos de ignorância é a sabedoria popular. E se ela não dispõe de muitos recursos para julgar, resolve a parada com aquilo de que dispõe. É por essa capacidade de ir longe com pouco que nossa espécie sobreviveu até hoje. E talvez falte aos que ficam espantados com a ascensão de Wendel Lagartixa entregar também um pouco com que a imaginação popular possa trabalhar.