Entenda relações entre investigações contra Bolsonaro e caso Marielle Franco


Suspeito no caso, Ailton Gonçalves já foi preso em Natal por abuso sexual. Novas revelações são esperadas para as próximas horas.


A Polícia Federal deflagrou nesta quarta-feira, 3, a Operação Venire para investigar fraudes nos certificados de vacinação contra a Covid-19, e durante a ação prendeu o ex-major do Exército Ailton Gonçalves Moraes Barros, de 61 anos.

Ailton é acusado de ajudar a emitir certificados falsos de vacinação em benefício do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Ele teria conseguido inserir dados falsos no sistema do Ministério da Saúde para beneficiar Bolsonaro e sua filha. Após o sucesso do esquema, Ailton pediu a Cid uma “contrapartida” em relação ao caso Marielle Franco, o que teria sido registrado em mensagens trocadas pelos dois.

Segundo o relatório da Polícia Federal, Ailton afirmou em mensagem de áudio transcrita que sabe “quem mandou” matar a vereadora Marielle Franco, mas não revelou o nome do suposto mandante. Ailton foi candidato a deputado estadual pelo PL no Rio de Janeiro e se intitulava como o “01 de Jair Messias Bolsonaro” durante a campanha eleitoral.

Além disso, a investigação apontou a participação do ex-vereador do Rio de Janeiro, Marcello Siciliano, no esquema de fraude nos certificados de vacinação.

Siciliano é apontado pela Procuradoria-Geral da República como integrante do núcleo dos “executores materiais” dos crimes sob investigação na Operação Venire. Os diálogos trocados entre Ailton e Cid indicam que o ex-vereador teria intermediado a inserção das informações falsas no sistema de saúde em troca da ajuda de Cid.

Siciliano chegou a ser apontado como suspeito do crime ocorrido em maio de 2018, mas a ligação foi descartada após a prisão de Ronnie Lessa e Élcio Vieira de Queiroz, hoje réus pelo assassinato da ex-vereadora e de seu motorista Anderson Gomes.

Histórico criminal de Ailton Gonçalves

O ex-militar do Exército e advogado Ailton Barros, preso nesta quarta-feira (3) em operação da Polícia Federal que apura esquema de falsificação de dados de vacinação contra Covid-19 envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro, possui um longo histórico de transgressões que levaram à sua expulsão da Força, em 2006.

Segundo documentos do Superior Tribunal Militar obtidos pela CNN, Ailton foi preso pelo menos sete vezes desde 1997 até ser expulso, em 2006. Naquele ano, reportagens mostraram a participação do então militar em um caso de desvio de armas do Exército para traficantes do Rio de Janeiro.

De acordo com o STM, o ex-militar era um “oficial que reiteradamente pratica atos que afetam a honra pessoal, o pundonor militar e o decoro da classe, por isso, incompatível com o oficialato”. A decisão que o afastou da Força cita diversos episódios que fizeram o militar alvo de procedimentos internos e que eram recorrentes práticas de “humilhação aos seus subalternos”.

Em 1997, Ailton foi preso por oito dias quando servia em Natal, no Rio Grande do Norte, quando, segundo o STM, tentou “abusar sexualmente de uma senhorita na área de um acampamento militar”.

Anos depois, em 2002, o militar foi alvo de seis procedimentos, sendo punido após atropelar um integrante da Polícia do Exército na Praia Vermelha, Zona Sul do Rio, que tentou parar o seu carro em uma ocorrência de trânsito. Naquele ano ele foi preso por cinco dias após distribuir, em área militar, material de campanha com informações sobre sua candidatura para deputado estadual. Também se recusou a cumprir ordens de seus comandantes e foi punido após conceder uma entrevista a uma TV Educativa para falar sobre racismo no Exército.

Em 2006, o nome de Ailton apareceu em reportagens dos jornais Folha de S. Paulo, O Globo e da revista Carta Capital que reportaram envolvimento dele em um suposto acordo do Exército para recuperar armas que haviam sido desviadas da Força e foram parar nas mãos de traficantes do Rio de Janeiro.