Fátima fará com Natália o que fez com Carlos Eduardo?

A eleição de 2022 no RN foi muito curiosa, e dela saiu provada a genialidade da governadora Fátima Bezerra (PT). Sem grandes realizações e enfrentando sérios problemas administrativos, com escassa base parlamentar, ela se reelegeu no 1º turno, de forma inquestionável e sem ter sido ameaçada em momento algum.

O preço que ela aceitou pagar pela segurança na reeleição foi a derrota no Senado. Sigamos o raciocínio.

Na imensa maioria dos municípios do RN a dobradinha oficial dos prefeitos era Fátima e Rogério Marinho (PL). Fátima bem que poderia ter jogado mais peso na busca por adesões ao seu candidato para o Senado, mas não quis criar complicações na única coisa que importava: sua reeleição. E quem irá questionar sua decisão e afirmar que – em seu lugar – faria diferente?

Fátima foi beneficiada também pela derrota de Carlos Eduardo (PDT). Eis outro motivo para o abandono do líder do PDT na reta final da campanha. Carlos eleito, estaria na linha de sucessão de Fátima par o governo. Teria 8 anos de mandatos, com duas eleições municipais e uma estadual no meio. E Fátima precisa abrir para outros aliados a vaga na chapa para o governo, se quiser manter vivo seu sonho de se aposentar no Senado Federal.

Outro motivo para Fátima fazer corpo mole na campanha de Carlos foi seu suplente. A governadora engoliu Jean como quem engole um sapo. Sua antipatia pelo presidente da Petrobras é insdisfarçável.

Basta uma comparação dos números da votação de Fátima nas cidades em que os prefeitos foram mais decisivos (estudo que estamos concluindo para publicar) para demonstrar como a principal aliança pragmática de Fátima em 2022 foi um acordo tácito com Rogério Marinho. Afinal, a oposição também não jogou peso em seu candidato ao governo, Fábio Dantas (SDD).

Fátima é mestre. E mestres pensam várias jogadas à frente. Tirar Carlos da jogada impediu que surgisse outra liderança relevante no campo progressista. Para ela, bem melhor um Rogério Marinho que não concorre por seus votos. No próprio PT, por muitas décadas, Fátima vem impedindo como pode o crescimento de outras lideranças. Dizem que debaixo de sua sombra não cresce nem capim. Procurem uma liderança eleitoral projetada por Fátima dentro do PT e – por favor – me corrijam.

Mas houve no Partido dos Trabalhadores do RN um fenômeno imprevisto, o qual nem Fátima pôde impedir: Natália Bonavides. Organizada numa corrente à esquerda do PT, Natália teve ascensão meteórica entre o eleitorado de esquerda e se firmou como uma alternativa à bipolaridade Fátima-Mineiro reinante no PT potiguar.

Natália agora se lançou à Prefeitura de Natal. Muito se fala que Fátima teria interesse na eleição de Natália para abrir a vaga de federal à sua antiga assessora e defensora de primeira hora Samanda Alves. Mas Fátima abrirá mão dos próprios interesses em favor da amiga? Seria uma reviravolta inédita em sua carreira política vitoriosa.

Natália prefeita mudaria o cenário interno do PT no RN. Abriria maior espaço para as correntes de esquerda que há muito se sentem alijadas da direção pela força excessiva do governo junto às bases partidárias.

Em 2024, Fátima poderá repetir com Natália aquilo que fez com Carlos Eduardo em 2022: apoiá-la formalmente mas trabalhar de forma que a vitória não venha. Seria outra jogada de mestre para manter a direção local do PT, o que é indispensável para garantir que novamente tenha total liberdade na costura das alianças do partido em 2026. Em 2022, dentro do PT, muitos chiaram, mas no final todos baixaram a cabeça e fizeram o que Fátima queria. Ela é craque, aposto que conseguirá de novo.