Governo Lula e MST: conflitos e críticas em meio à prisão de José Rainha

A prisão de José Rainha, líder da Frente Nacional de Luta Campo e Cidade (FNL), acusado de extorsão a proprietários rurais na região do Pontal do Paranapanema (SP), gerou discussões sobre as demandas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a eficácia da reforma agrária no Brasil. Rainha foi um dos principais líderes…

O líder da Frente Nacional de Luta Campo e Cidade (FNL), José Rainha, foi preso pela Polícia Civil de São Paulo no último sábado (4) sob acusação de extorquir proprietários rurais na região do Pontal do Paranapanema (SP). Ainda no sábado, Luciano de Lima, outra liderança da FNL, também foi preso sob a mesma acusação.

Ambos foram encaminhados para o Centro de Detenção Provisória (CDP) de Caiuá, no interior de São Paulo, onde seguirão detidos após decisão desfavorável na audiência de custódia. As prisões foram resultado de um inquérito que investiga se os acusados estariam se aproveitando do movimento social para extorquir proprietários rurais. As duas lideranças do movimento teriam vantagens financeiras de pelo menos seis vítimas, segundo alegações veiculadas na imprensa.

Segundo a Polícia Civil, armas supostamente usadas em conflitos agrários foram apreendidas na operação. As prisões, segundo versão oficial, não têm relação com as invasões realizadas pela FNL no “Carnaval Vermelho”.

Em nota, a FNL afirmou que as detenções de Rainha e de Lima têm “cunho político” e estão relacionadas às ocupações promovidas pelo movimento. “Essa prisão, de cunho político, tem nítida relação com a jornada de ocupações do carnaval vermelho, sendo um ato de retaliação aos lutadores do povo sem terra. A FNL ganhou força nos últimos anos ao realizar jornadas de luta no carnaval.”

José Rainha é um militante pela reforma agrária desde os 17 anos de idade e foi um dos principais líderes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) durante a década de 90. Quando o MST teve divergências com o governo federal petista, na primeira década deste século, o movimento rachou e ele acabou desligado. Desde que deixou o MST, o líder sem-terra fundou novos movimentos e passou a atuar no município de Mirante do Paranapanema (SP). Em 2014, Rainha participou da fundação da FNL, que funciona como uma frente de coletivos que buscam o direito social à terra.

José Rainha é mencionado em mais de 40 processos judiciais somente no estado de São Paulo. Ele foi acusado de matar um fazendeiro e um policial em 1989, na cidade de Pedro Canário (ES), sendo inicialmente condenado a mais de 26 anos de prisão. Porém, após recorrer da decisão, acabou absolvido.

No cenário político atual, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) tem sido um dos movimentos sociais mais ativos no país. Desde sua criação, em 1984, o MST tem como objetivo lutar pela reforma agrária e garantir o acesso à terra para as famílias do campo.

Em meio a esse cenário, o governo Lula tem tomado medidas para atender às demandas do MST. Mas também faz acenos para os grandes produtores rurais.

Recentemente, o presidente se reuniu com presidentes das principais associações do setor agropecuário em Rondonópolis, Mato Grosso, e prometeu recursos para ampliar as exportações e a distribuição de alimentos para o mercado interno. O encontro foi visto como uma tentativa de acalmar os ânimos no setor agropecuário, que tem grande influência na economia brasileira e tem se mostrado hostil ao governo Lula.

Além disso, as medidas adotadas pelo governo para atender as demandas do MST também têm gerado críticas por parte de alguns setores da sociedade, sobretudo do agronegócio. Há ainda quem questione a eficácia da reforma agrária, argumentando que a distribuição de terras não é suficiente para resolver os problemas sociais no campo. Além disso, há críticas em relação ao modo como o MST tem realizado suas ocupações, acusando o movimento de usar de violência e não respeitar o direito de propriedade.

Os movimentos sociais brasileiros sempre foram alvo de políticas de criminalização. Mas o processo se intensificou nos últimos anos. A ascensão da extrema-direita no país os colocou no centro de uma gigantesca campanha de detração e desinformação.

Outro fator que não pode ser desconsiderado são os atos antidemocráticos de 8 de janeiro. Na esteira da defesa das instituições e da legalidade, os discursos ganharam viés autoritário ao confundir muitas vezes ações legítimas de protestos com os atos criminosos que ocorreram em Brasília.

Em ambiente de debate público empobrecido e histérico como o nosso, os movimentos do campo – naturalmente mais radicalizados por todo seu contexto histórico – podem o preço da marginalização diante das tentativas da esquerda de se adaptar a um novo cenário político que exige a defesa da ordem e das instituições.

O desafios de movimentos como o MST e a FNL não param de crescer. E o risco maior é que percam sua base de apoio nos setores médios da sociedade que são simpáticos à esquerda. Isso representaria grande retrocesso na já precária trajetória do Brasil em políticas de democratização da terra.


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