Improviso ou estratégia? O que está por trás das polêmicas declarações de Lula sobre guerra na Ucrânia

As falas do presidente Lula sobre o conflito armado entre Rússia e Ucrânia têm dado o que falar. Tanto interna quanto externamente, as reações foram majoritariamente negativas, baseadas na argumentação de que Lula equivale agressor a agredido.

Contudo, pode haver bem mais que falas desconexas por trás das declarações presidenciais.

O que aconteceu

Após as polêmicas declarações nas quais afirmou que tanto Rússia quanto Ucrânia tinham responsabilidades na eclosão da guerra, Lula passou a criticar a “violação da integridade territorial” da Ucrânia e defendeu uma solução “política e negociada” para a guerra.

Lula deu a declaração no dia seguinte à crítica dos Estados Unidos à política externa brasileira, que acusou o Brasil de “papaguear” propaganda russa e chinesa sobre a guerra na Ucrânia.

A crítica americana ocorreu após a viagem oficial de Lula à China e aos Emirados Árabes Unidos, quando o presidente disse que os Estados Unidos e a Europa estimulam a guerra ao ceder armas para a Ucrânia.

Lula reforçou ainda a preocupação com as consequências globais do conflito na produção de alimentos e de energia, em especial nas regiões mais pobres do mundo. Ele também repetiu a necessidade de criar um grupo de países capazes de mediar uma solução pacífica para a guerra. “Precisamos criar urgentemente um grupo de países que tente sentar-se à mesa tanto com a Ucrânia como com a Rússia para encontrar a paz”, declarou.

Recentemente, o conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Jake Sullivan, conversou com Celso Amorim, assessor especial do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por telefone na terça-feira (18.abr.2023). A conversa abordou uma série de questões bilaterais e globais, incluindo o conflito entre Rússia e Ucrânia, combate às mudanças climáticas e proteção do meio ambiente, G20 e democracia, de acordo com a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil.

Essa conversa veio após os Estados Unidos criticarem o Brasil por conta do posicionamento de Lula no cenário internacional. Na segunda-feira (17.abr.2023), os EUA criticaram o presidente brasileiro depois de ele dizer que o país estava incentivando a guerra na Ucrânia. Em conversa com jornalistas, o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, John Kirby, disse que Lula “repete a propaganda russa e chinesa como papagaio sem olhar para os fatos”. Kirby ainda disse que as falas de Lula são “profundamente problemáticas” e que os comentários do petista sobre a possibilidade de a Ucrânia ceder o território da Crimeia para a Rússia são “simplesmente equivocados”.

Celso Amorim respondeu à crítica dos EUA, dizendo que a fala dos Estados Unidos sobre o presidente brasileiro é um “absurdo”. A reputação de Lula nos Estados Unidos está em queda livre, e os republicanos já têm pouca vontade de aprovar verbas para a Amazônia. Com Lula como destinatário desse dinheiro, a disposição pode ser ainda menor. A Casa Branca anunciou na quinta-feira (20) a proposta de destinação de US$ 500 milhões para o Fundo Amazônia, além dos US$ 50 milhões já prometidos. O projeto de lei Amazon Act também prevê US$ 4,5 bilhões para toda a Bacia Amazônica ao longo de vários anos, mas tudo isso depende de aprovação no Congresso.

Enquanto isso, o secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Jens Stoltenberg, reafirmou nesta sexta-feira (21) que a Ucrânia se juntará à aliança militar, acrescentando que todos os aliados da Otan concordaram que o país deveria ser um membro.

“Todos os aliados da Otan concordaram que a Ucrânia se tornará um membro da Otan, mas o foco principal agora é como garantir que a Ucrânia prevaleça”, disse Stoltenberg a repórteres na Base Aérea de Ramstein, sem dar uma data definitiva de quando isso aconteceria. “Quando a guerra terminar, precisamos garantir que a história não se repita, que a Rússia não seja capaz de continuar atacando e guerreando novamente contra a Ucrânia e de continuar minando a segurança europeia”, acrescentou.

O que estaria por trás?

China e Rússia vêm ensaiando estabelecer um novo bloco econômico e político, que seria capaz de rivalizar com União Europeia e EUA. A China, hoje, é um dos principais compradores de produtos brasileiros e busca intensificar relações na América Latina.

Somado a isso, vemos nas declarações de Lula também questionamentos à predominância do dólar como padrão de trocas internacional.

Tudo isso mostra uma possível rearticulação internacional, com vistas a diminuir a hegemonia econômica e política dos EUA.

Em recentes conversações em Moscou, o ministro da Defesa da Rússia Sergei Shoigu declarou que a cooperação entre a Rússia e a China tem um efeito estabilizador sobre a situação no mundo e contribui para a redução das tensões. Shoigu enfatizou que os dois países coordenam suas ações no planejamento de patrulhas marítimas e aéreas conjuntas e exercícios militares tanto em base bilateral como em formatos multilaterais, como no âmbito da Organização de Cooperação de Xangai.

O ministro da Defesa da China, coronel-general Li Shangfu, disse que sua primeira visita exterior à Rússia após a nomeação para o cargo tem como objetivo demonstrar ao mundo inteiro a firme intenção de Pequim de fortalecer a cooperação estratégica com Moscou. “Após a nomeação para o cargo de ministro da Defesa, o primeiro lugar de visita é exatamente à Rússia, para demonstrar ao mundo o alto nível de desenvolvimento das relações sino-russas e demonstrar uma firme determinação em fortalecer a interação estratégica das forças armadas da China e Rússia”, declarou Li Shangfu durante o encontro com o ministro russo.

A declaração de Shoigu mostra a importância da relação entre a Rússia e a China e como ela pode ter um efeito estabilizador na situação mundial, contribuindo para a redução das tensões.