Lição para mocassins: a Campanha De pé no chão também se aprende a ler

A campanha De Pé no Chão também se Aprende a Ler não apenas marcou a história educacional brasileira como também deixou a todos aqueles comprometidos com a nação um legado de resistência e inventividade, que passadas décadas ainda surge como um luminoso farol guiando nosso povo rumo à sua emancipação.

Há poucos meses, Juscelino Kubitschek inaugurava a nova capital federal, símbolo máximo de seus 50 anos em 5. No mundo, a Guerra Fria vivia seus momentos mais intensos. A Revolução cubana, no despertar do ano anterior, recrudescera na América Latina antigos sonhos e ideais revolucionários de Bolívar, Castro Alves e Tiradentes, inspirando militantes e organizações políticas em diversos países; nascia o ícone Che, imagem da rebeldia e juventude latino-americana.

A década que se encerrava fora uma das mais criativas de nossa história. Nela surgiram grandes obras de um Bergman, nossa Bossa Nova e os Beatles. A União Soviética enviara para a órbita terrestre o primeiro ser vivo oriundo de nosso planeta, a cadela Laika; Watson e Crick apresentavam ao mundo a dupla hélice do DNA. Ademir da Guia, o Divino, se destacava no Bangu e uma seleção de gênios da bola conquistava para o Brasil sua primeira Copa do Mundo, inspirando as crônicas impagáveis de um talento genuinamente brasileiro, Nelson Rodrigues. Também foi o ciclo de ouro de nossa literatura, trazendo ao mundo obras como Claro Enigma, de Drummond.

A população natalense, então, era de pouco mais de 120 mil pessoas. A atividade econômica da cidade se concentrava no setor de serviços, sobretudo no comércio. Não havia na capital potiguar significativa atividade industrial, nem os prédios que hoje marcam sua paisagem. A renda per capita era reduzida, mesmo para os padrões da época. Contava com mais de 60 mil analfabetos, um alto índice de desemprego, subemprego e mortalidade infantil (dentre os maiores do mundo). Mesmo assim, os ventos do progresso agitavam corações e mentes da pequena cidade banhada pelo Atlântico.


Era o ano de 1960. Quando em outubro o povo foi às urnas, esse anseio de mudança e progresso passaria por seu mais importante teste. Pela primeira vez a cidade elegeria seu prefeito pelo voto direto. A Cruzada da Esperança – ampla frente de democratas e progressistas – enfrentava nas eleições as tradicionais forças políticas do estado. Suas principais lideranças eram Aluízio Alves, candidato ao Governo, e Djalma Maranhão, candidato à Prefeitura.

Abertas as urnas, a frente progressista obteve uma fragorosa vitória. Aluízio foi eleito. Com 21.942 votos, Djalma Maranhão derrotou o candidato da UDN Luís de Barros. As urnas da capital ainda revelaram outro representativo resultado: o candidato à Presidência da República Marechal Lott obteve uma esmagadora vitória sobre Jânio Quadros; foram 23.372 votos para o companheiro de chapa de João Goulart contra 9.924 de seu oponente. Os ventos da mudança faziam sua colheita.

Um homem raro

Djalma Maranhão, que seria deposto pelo golpe de abril de 64, se tornaria o mais importante prefeito de nossa capital. Mostrou-se uma liderança intensamente comprometida com as aspirações e necessidades de sua pátria; declarava-se um nacionalista fervoroso, não do tipo “me ufano de meu Brasil, de suas florestas verdejantes, dos seus rios caudalosos e de seu céu cor de anil […] Não. [mas do nacionalismo] das forças vivas da nacionalidade. Reservas inesgotáveis do desejo de fazer do Brasil uma das maiores potências do mundo”.

Djalma militara originalmente no Partido Comunista do Brasil, então PCB, seguindo para organizar o Partido Trabalhista Nacional (PTN) e, posteriormente, se organizou no Partido Socialista Brasileiro (PSB). Sua vitória foi a consagração de forças populares em oposição às oligarquias historicamente detentoras do poder no estado.

Quando tomou posse como prefeito, resolveu atacar frontalmente os graves problemas sociais de sua Natal, que conhecia tão bem, conforme revelam seus escritos. Para ele, os mais de 60 mil analfabetos eram o maior entrave para o desenvolvimento e emancipação do povo. Em uma carta dirigida a autoridades de todo país, em 1962, chegou a afirmar que “na sua luta contra o subdesenvolvimento ele [o povo] precisa se erguer do solo e ganhar a sua independência de ação. E só poderá fazer isto se for alfabetizado e tiver uma educação mínima que o faça afirmativo na sociedade. Acreditamos que chegamos a essa encruzilhada: ou o povo se alfabetiza ou se escraviza.”

Ciente desses preceitos, Djalma Maranhão e seus assessores – com destaque para o secretário da Educação Moacyr de Góes – se puseram a enfrentar o maior entrave para a erradicação do analfabetismo: a falta de recursos materiais e humanos. Inspirados em experiências como as do Movimento de Cultura Popular de Recife e do Movimento de Educação de Base, iniciaram aquela que entraria pra história como a “Campanha De Pé no Chão também se Aprende a Ler”.

Escola brasileira com dinheiro brasileiro

A grande maioria das cidades brasileiras da década de 60 não possuía recursos para desenvolver projetos educacionais de amplo alcance. Diante dessa realidade, uma das saídas mais frequentes era apelar à Aliança para o Progresso, programa norte-americano para a América Latina, visando a refrear a crescente influência da União Soviética na região.

Recusando-se, como dizia, a entregar a cultura nacional aos imperialistas, Djalma Maranhão propagava o lema “Escola Brasileira com Dinheiro Brasileiro”. Disse que o “futuro da juventude brasileira é inalienável, não podendo ser negociado no balcão internacional das negociatas imperialistas […] nenhum povo é dono de seu destino, se antes não for dono de sua cultura”.

A escola brasileira com dinheiro brasileiro se apoiou na cultura e na participação populares para combater o analfabetismo. Na falta de recursos para construir as tradicionais instalações do grupos escolares, optou por realizar uma campanha incentivando a participação social nas ações da Prefeitura.

Assim nasceram as “escolinhas”, consideradas a primeira fase da Campanha De Pé no Chão. Trezentas delas foram abertas em toda a cidade. As salas de aula foram cedidas por sindicatos, agremiações esportivas e pessoas que ofertavam espaço em suas próprias residências.

As ações das escolinhas eram geridas por um grupo de trabalho presidido pelo prefeito e que contava com membros de sua equipe, professores e diversas organizações estudantis de Natal, a exemplo da União Estadual dos Estudantes, então presidida por Ívis Bezerra, e do Diretório Estudantil Celestino Pimentel. Nessa fase do projeto, mais de mil pessoas trabalhavam diretamente nas ações da campanha.

Escolinhas e acampamentos

As “escolinhas” conseguiram multiplicar no prazo de um ano o contingente de crianças e adultos matriculados em Natal. Contudo, era consenso entre os organizadores da campanha que ela precisava ampliar sua atuação, chegando a áreas mais populosas da cidade, abrindo turmas com mais alunos. Como não havia recursos para a construção de prédios escolares e as salas cedidas pela população já não davam conta das novas necessidades e desafios, uma solução inovadora e ousada foi a construção dos “Acampamentos Escolares”.

Com chão de barro batido, teto de palha de coqueiro e toras de madeira da região, foram erguidos nas imediações dos maiores bairros natalenses galpões que mediam 8 metros de largura por 30 de comprimento.

As construções – além do óbvio benefício do baixo custo – também serviram pra valorizar a cultura regional, remetendo às edificações indígenas e às vilas de pescadores do litoral potiguar.

Em suas memórias, Djalma Maranhão conta que os operários da Prefeitura não souberam construir o primeiro acampamento. Foi necessário que chamassem pescadores do Canto do Mangue para concretizar a empreitada.

O primeiro Acampamento Escolar foi erguido no populoso bairro das Rocas. Eram cinco pavilhões que recebiam diariamente 1.500 alunos, entre adultos e crianças. Logo em seguida, inaugurou-se o Acampamento da Comunidade do Carrasco. A própria população era convocada a defender e zelar pelos acampamentos, convocação a que atendeu massivamente.

“Se alguém fosse condenado pelo crime de alfabetizar crianças e adultos, pediríamos para nós esta honra!”

Djalma Maranhão


Logo a campanha se pôs diante de novos desafios, que foram encarados com o mesmo espírito criativo e ousadia que nortearam as ações inaugurais.

No bairro das Rocas, deram início à tentativa de alfabetizar de casa em casa. Uma camionete tocando música e temas relacionados à campanha acompanhava as equipes nas visitas às residências.

Em dezembro de 1962, começou a funcionar o Centro de Formação de Professores, dirigido pela professora Margarida de Jesus Cortez. O centro surgiu da necessidade de ampliar os quadros de professores, diante das grandes proporções que a campanha assumia.

Como extensão lógica do processo de alfabetização e emancipação da população, em 63 surgiu a variação “De Pé no Chão também se Aprende uma Profissão”. Nas palavras do próprio Maranhão, “ensinar que um B com A faz um B-A-BÁ não basta.”

O fim do sonho?

Ao longo dos poucos anos que foi permitido à campanha durar, ela produziu uma cartilha de alfabetização e iniciou seu processo de interiorização. Mais de 17 mil pessoas foram alfabetizadas; centenas de educadores populares e monitores foram formados.

Infelizmente para a pequena, bela e pacata cidade nordestina que ousou peitar problemas históricos recorrendo à cultura e ao potencial de seu povo, essa experiência única foi interrompida pelos ventos obscurantistas que acabaram não apenas com essa iniciativa de emancipação popular. Durante décadas, fomos impedidos de progredir. Por outras, não ousamos.

“Se alguém fosse condenado pelo crime de alfabetizar crianças e adultos, pediríamos para nós esta honra!”, declarou o prefeito. Ironicamente, seu desejo foi atendido. Djalma foi deposto e encarcerado numa prisão em Fernando de Noronha, recorrendo finalmente ao exílio no Uruguai, onde viria a falecer em 1971, longe de sua gente, longe de sua terra. Certa vez ele escreveu:

“No dia em que fomos retirados do presídio em que nos encontrávamos em Natal para sermos identificados na Secretaria de Segurança, ao passar por um dos prédios construídos pela Campanha de Pé no Chão também se Aprende a Ler, reafirmamos para um dos encarregados do IPMs, capitão José Domingos, aquilo que outros companheiros da campanha já haviam dito: – Está aí a prova material do nosso crime. E ele ficou sensivelmente embaraçado”.

A campanha De Pé no Chão também se Aprende a Ler não apenas marcou a história educacional brasileira como também deixou a todos aqueles comprometidos com a nação um legado de resistência e inventividade, que passadas décadas ainda surge como um luminoso farol guiando nosso povo rumo à sua emancipação. Emancipação que mais do que nunca está na ordem do dia. Homens como Djalma Maranhão e gerações como a sua são raros, havemos de lhes prestar um justo tributo quando enfim extirparmos a alienação e a miséria do seio de nosso povo – erradicar o analfabetismo permanece um bom primeiro passo.

Imagens: DHNet e Tok de História


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