Menina trans é brutalmente assassinada em Natal; quantas mais serão?

Por Yasmin Santos O silêncio acerca da violência acometida às pessoas transsexuais tem custado, anualmente, a segurança de centenas de jovens. Com base nas vidas perdidas, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (Antra) denuncia que a expectativa de vida de uma pessoa trans no Brasil, o país que mais mata pessoas em…

Por Yasmin Santos

O silêncio acerca da violência acometida às pessoas transsexuais tem custado, anualmente, a segurança de centenas de jovens. Com base nas vidas perdidas, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (Antra) denuncia que a expectativa de vida de uma pessoa trans no Brasil, o país que mais mata pessoas em razão de sua identidade de gênero, é de somente 35 anos. A jovem Sthefane foi mais uma vítima dessa violência, sendo arrancada deste mundo bem mais cedo do que a estimativa desesperadora previu. Tinha apenas 15 anos.

Ainda adolescente, Sthefane teve de enfrentar uma violência sistêmica que roubou sua inocência e sua dignidade; uma violência que lhe negou o direito de ser criança. Roubou-lhe o direito de sonhar, de estudar, de sorrir e ser feliz, de ter um lar, ser acolhida e amada, como toda criança e jovem deve ser.

Mas para Sthefane, uma menina travesti, a realidade foi outra. Muitos portais noticiam “travesti é encontrada morta”, como se o assassinato e a tortura de Sthefane fosse um caso qualquer. Como se sua morte não fosse resultado dos preconceitos e discriminações disseminados em nossa sociedade, dos quais ela foi vítima até seus últimos minutos de vida. Mesmo após uma violência tão brutal, os portais se negam a reconhecer sua identidade, a citar seu nome. Negam-lhe qualquer gota de respeito e compaixão.

Mesmo após uma violência tão brutal, as autoridades se negam, também, a discutir o aparato estatal em que essas violências se sustentam. Crianças, jovens e adultos estão morrendo. Estão sendo expulsos de suas casas, de suas escolas e trabalhos, jogados na marginalidade, vulneráveis a qualquer tipo de violência e criminalidade. É importante frisar: não saem, não decidem abandonar seus lares, são EXPULSOS de espaços hostis à sua existência.

Há poucos dias, o prefeito de Natal participou de uma atividade no Centro de Cidadania LGBTQIA+, no entanto uma pergunta vem à tona: há algo além dos discursos e aparências? Que políticas serão promovidas em Natal e no RN para resgatar e proteger crianças trans que estão desamparadas, seja nas ruas ou no seio de uma família preconceituosa? Essas pautas serão incluídas nas escolas, na saúde e na segurança pública? Ou essas mortes representam apenas números irrelevantes?

Já faz treze anos que o Brasil é o país que mais mata pessoas trans. Nesse sangrento período, perdemos Bárbara, de 23 anos, Daniely Medeiros Gonçalves, de 26 anos, Rauany, de 24 anos, Renata Ferraz, de 16 anos, Rany Fada, de 19 anos. Todas assassinadas. Elas e mais tantas outras vidas violentadas e interrompidas.

O que nós, como cidadãos brasileiros, temos a dizer e fazer sobre isso? O que nossos representantes, eleitos para garantir uma sociedade mais justa, irão fazer sobre isso? Se não pararmos para refletir, qual será o rumo de uma sociedade na qual proteger preconceitos é mais importante que proteger as vidas de pessoas trans?


Comments

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *