Mês da consciência negra termina sendo mais do mesmo

Em alusão ao Dia da Consciência Negra, 20 de novembro,uma série de textos, reportagens e notícias foram produzidas, como acontece todos os anos. A data, no entanto, está longe de ser apenas simbólica ou comemorativa, uma vez que representa a luta e a resistência das pessoas pretas de nossa sociedade — e muitos se esquecem…

Em alusão ao Dia da Consciência Negra, 20 de novembro,uma série de textos, reportagens e notícias foram produzidas, como acontece todos os anos. A data, no entanto, está longe de ser apenas simbólica ou comemorativa, uma vez que representa a luta e a resistência das pessoas pretas de nossa sociedade — e muitos se esquecem dessa parte.

Alguns fatos que ocorreram ao redor da data escancara a hipocrisia do discurso hegemônico supostamente antirracista. Uma matéria divulgada pelo Estadão, por exemplo, trouxe uma série de orientações para que pessoas negras sofressem menos com o racismo: dar uma criação antirracista aos seus filhos, buscar escolas que tratem das pautas étno-raciais, analisar o seu espaço de trabalho em busca de representações negras, ler autores negros — e denunciar, “se achar necessário”.

Dado que as orientações visam a combater o racismo velado (praticado de forma encoberta), faria sentido. Exceto que a maior parte de pessoas negras sequer têm essas alternativas ao seu alcance… Uma mãe que vive na periferia ou na favela, por exemplo, e que tem seus filhos estudando na única escola pública do bairro não tem a opção de procurar uma escola que considere a luta antirracista e, caso seus filhos sofram violência, muito provavelmente continuarão sofrendo na mesma escola até que concluam os estudos.

Além do mais, apenas uma semana uma semana após a data “comemorativa, o próprio Estadão cometeu uma gafe sem igual, ao ilustrar com uma mão negra armada um atentado mortal cometido por um branco… e, para completar, neonazista. É o próprio retrato da hipocrisia vigente.

Como, então, um jovem preto e periférico vai denunciar um caso de racismo na mesma polícia que invade e mata dezenas de jovens pretos nas favelas? É preciso trazer os pontos dessa forma para que nos atentemos que o combate ao racismo não consiste apenas em corrigir algo que alguém fala, mas sim combater uma estrutura com um certo viés institucional que se enraíza e perpetua práticas racistas em qualquer ambiente que seja. É lutar por políticas públicas efetivas de reparação e pela sua manutenção. Instrumentos como a Lei de Cotas permitiram que mais jovens negros tivessem acesso ao ensino superior, mas muitos precisam de reforços para continuar tendo o mesmo desempenho.

Falar de racismo no Brasil, portanto, não é falar de práticas isoladas; é falar de direitos que não são assegurados ou postos em prática, é falar de uma justiça social seletiva que discrimina e exclui. É falar de uma luta por direitos que já conquistou muito e deve continuar avançando.


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