O Messi do Plano Palumbo também é um craque

Nunca surfei, e o Messi do Plano Palumbo também não. Ambos preferimos a observação séria e distante. Nosso gosto genuíno é flanar pelas ruas projetados por Giácomo Palumbo em fins da década de 1920. Messi conhece cada uma de suas esquinas pelo cheiro.

De longe avisto o pequeno Messi. Como sempre, traz consigo um curioso bípede chamado Ivan, que – da outra ponta da coleira – carrega seus 90 quilos com a delicadeza de um tanque. Logo percebo um sorriso involuntário em todos na mesa do café.

Messi é blasé. Dá uma encarada de leve, focinho achatado, puxa um pouco de ar e vai tratar de assuntos mais importantes nos arredores. Seu guarda-costas segura minha mão e fica repetindo “solta a minha a mão, solta a minha mão”, enquanto a prende. Sei, piada infame. Ele não se cansa disso. É um ritual que repete toda vez que nos encontramos.

Enquanto o buldogue francês fareja, Ivan solta uma sequência de piadas infantis, dolorosas, e entre elas faz algumas observações tão inteligentes que fico confuso; seria um novo tipo de troll, um troll dândi?

Messi não me ajuda na resposta, é muito discreto em relação ao parceiro de caminhadas.

Juntos, Messi, Ivan e o filho deste, Miguel, já percorreram o país de cabo a rabo. Mas Messi segue preferindo os odores locais, pelo que consta.

O buldogue, francês, completa seus 11 anos no próximo dia 15 de outubro, dia do professor. Nasceu no Rio de Janeiro e chegou a Natal com 45 dias de vida. Diferente do dono, já perdeu todo o sotaque carioca.

A comunicação sutil de Messi contrasta com as efusivas manifestações de seu companheiro. Fico ali, observando e ouvindo. Uma dupla que marca a paisagem do bairro.

No dia seguinte, me sento à mesma mesa e aguardo. Algo está faltando. O par não apareceu naquele dia. Mas relaxam, esta é uma crônica alegre. Messi, Ivan e Miguel estavam em Pipa. Enquanto uns surfavam, o outro analisava tudo, blasé como sempre. Na semana seguinte, repetiríamos nosso ritual. “Solta minha mão”. Messi conferindo as mudanças do ambiente. E a sensação boa de que o tempo ainda consegue se expandir, como se estivéssemos no campo.