O mundial de basquete e o sucesso da globalização

Por Daniel Costa

Pouca gente sabe, mas desde meados deste último mês de agosto está rolando o Mundial de Basquete Masculino. Ele acontece em três países: Japão, Indonésia e Filipinas. O Brasil se faz presente, não tão bem representado como nos tempos áureos de Amaury Passos, Wlamir Marques e Oscar, mas o suficiente para que esteja classificado para a segunda fase, quando, em uma disputa no formato quadrangular, enfrentará Espanha, Canadá e Letônia, todas seleções de alto quilate.

Algum desavisado pode estranhar que essas equipes sejam consideradas de bom nível. Entretanto, assim como no futebol, no basquete também não há mais bobo. Se até o início deste século o amplo domínio do jogo ficava na conta dos EUA, e de alguns países do leste europeu, hoje em dia as coisas mudaram de figura. Times que não tinham tradição subiram de patamar. Atualmente, é possível encontrar excelentes conjuntos nos quatro cantos da Europa e em todo o continente americano. Isso sem esquecer do avanço do basquetebol africano, que se vê representado no Mundial por jogadores do calibre do sudanês Carlik Jones, atleta do Chicago Bulls, time da liga norte-americana de basquete, a NBA.

É certo que os EUA continuam sendo os donos da bola laranja. Eles sempre entram no rol dos favoritos em qualquer competição. Mas não com a superioridade de outrora. Se antes uma seleção formada por jogadores universitários americanos era suficiente para o Tio Sam desfilar na quadra de paletó e gravata, hoje atletas importantes da NBA têm que molhar a camisa para que a derrota não venha a cavalo, como aconteceu nas olimpíadas de 2004, quando um verdadeiro “dream team”, que contava, dentre outros, com Lebron James e Tim Duncan, perdeu na semifinal para a extraordinária Argentina de Emanuel Ginobili e Luis Scola.

Essa diminuição do abismo que existia entre seleções parece ter muito a ver como a expansão do modelo do basquete americano. Ainda que seja possível distinguir as escolas de jogo europeia e norte-americana, as ambições globais da NBA, que se tornou um produto para ser vendido ao mundo, fez com que atletas de todos os cantões da terra ganhassem espaço na liga, passando a incorporar o “physique du rôle” dos jogadores dos EUA, que aliam técnica à força física. Além disso, eles adquiriram o traquejo necessário para replicar e enfrentar o típico jogo dos americanos, de fortíssima marcação e rápidas transições.

Não por outra razão, nas últimas cinco temporadas da NBA, o jogador escolhido como o mais valioso do campeonato foi um estrangeiro: Giannis Antetokounmpo, da Grécia (2019/2020); Nikola Jokic, da Sérvia (2021/2022); e Joel Embiid, do Camarões (2023). Daí ser comum ver agora no Mundial de Basquete jogadores espetaculares como Luka Doncic (Eslovênia); Shai Gilgeous-Alexander (Canadá); Karl-Anthony Towns (República Dominicana); e Rondae Hollis-Jefferson (Jordânia); todos atletas da NBA, jogando o fino da bola e mostrando para todos que o  atributo anteriormente quase exclusivo dos boleiros norte-americanos, agora passou a ser incorporado aos jogadores do planeta terra; razão pela qual a atual Copa do Mundo, ao menos em termos de qualidade, graças ao fenômeno da globalização, pode ser considerada um caso de sucesso.