O pavor medonho que tenho do gado

Me criei numa vila cercada pela floresta Amazônica, no norte do Mato Grosso. Nos meses de seca, podíamos ver a poeira vermelha subindo a quilômetros. Eram as enormes boiadas mato-grossenses chegando.

Centenas, às vezes milhares de cabeças de gado. Bois robustos emparelhados, um colado no outro. Quando passavam por minha casa, sentia um pavor medonho. Aquela massa de carne e ossos e chifres. Poucos homens em seus cavalos tocando o berrante.

A turba irracional e bovina era monumental, e eram muitas as histórias de tragédias sobre aqueles que ficaram no seu caminho.

A boiada passava e ficava aquela sensação de que a desgraça viria com a próxima comitiva. Um estouro, um animal desgarrado.

Os bois, esses já tinham noção do perigo que os cercava. Para o abatedouro a maioria. Os mais fracos, para as piranhas, tão comuns nos rios do Mato Grosso.

Andavam balaçando suas cabeças e ruminando o som dos berrantes. No próximo rio a cruzar, um seria escolhido o líder. Orgulhoso, desbravaria as águas. Mas não antes de ser espetado pelo boiadeiros, para que sangrasse e atraísse todas as piranhas. Iludidas pelo sacrifício, as piranhas deixariam os donos do berrante e o resto do gado atravessar o rio turbulento em paz.