O que é ‘fascista’? O tiozão do WhatsApp?

De 1964 a 2022, a palavra “fascista” foi usada 954 vezes em discursos na Câmara dos Deputados, em Brasília. Dessas, 411 vezes (ou 43% das ocorrências) aconteceram apenas nos últimos cinco anos. O aumento significativo no uso da palavra não é por acaso. Nos últimos anos, “fascista” se tornou um dos adjetivos mais populares e…

De 1964 a 2022, a palavra “fascista” foi usada 954 vezes em discursos na Câmara dos Deputados, em Brasília. Dessas, 411 vezes (ou 43% das ocorrências) aconteceram apenas nos últimos cinco anos.

O aumento significativo no uso da palavra não é por acaso. Nos últimos anos, “fascista” se tornou um dos adjetivos mais populares e talvez menos compreendidos do debate político brasileiro — e mundial.

Usado na maioria das vezes para desqualificar (ou xingar) adversários políticos, a utilização atual do termo guarda pouca ou nenhuma referência à ideologia criada na Itália do início do século 20 por Benito Mussolini — que inspiraria outros extremismos, como o nazismo, e serviria de catalisadora para o mais sangrento conflito de nossa história, a Segunda Guerra Mundial.

Mas o que de fato é o fascismo, quem são (ou eram) fascistas, por que alguns pesquisadores identificam elementos do fascismo em movimentos atuais de extrema direita — e por que outros consideram que a ideologia ficou no passado?

Há dezenas de milhares de livros e artigos em torno do tema, mas “no final das contas, nenhuma interpretação do fascismo parece ter conseguido satisfazer a todos de forma conclusiva”, resume o cientista político e historiador americano Robert Paxton no livro Anatomia do Fascismo.

Ele próprio, inclusive, oferece sua definição. Para Paxton, o fascismo pode ser definido como um comportamento político marcado por uma preocupação obsessiva com a decadência e a humilhação de um grupo social, tido como vítima; um partido de base popular formada por militantes nacionalistas; uma cooperação ambígua com elites tradicionais; um repúdio às liberdades democráticas; racismo e limpeza étnica; expansão internacional violenta e desrespeito às leis e à ética.

Outra grande questão que divide os especialistas é se é possível classificar um movimento extremista atual como fascista ou se o termo deve ser usado apenas para se referir às experiências históricas do início do século 20.

Para o historiador Emilio Gentile, considerado o maior especialista vivo em fascismo na Itália, esses termos só devem ser adotados para descrever os movimentos que tomaram o poder nos anos 1920 e 1930. O uso atual do termo poderia, segundo ele, prejudicar o entendimento de um novo fenômeno. “O problema hoje não é o retorno do fascismo, mas quais são os perigos que a democracia pode gerar por si só, quando a maioria da população — ao menos, a maioria dos que votam — elege democraticamente líderes nacionalistas, racistas ou antissemitas”, diz.

Por outro lado, o historiador argentino Federico Finchelstein aponta em suas obras diversos paralelos entre o fascismo histórico e líderes que ele classifica como populistas no século 21, como elementos de intolerância, xenofobia, autoritarismo, uso político da mentira e desmonte de instituições democráticas. Ele cita como exemplos desse “novo populismo” o trumpismo e o bolsonarismo.

O bolsonarismo, por sua vez, é caracterizado por alguns pesquisadores como um movimento neofascista ou pós-fascista. “No Brasil, uma ideologia com propagandas golpistas, muito próxima do fascismo, tem se intercalado com o nacionalismo e o messianismo mais extremo a fim de ignorar a pandemia e o bem-estar da população”, escreve Finchelstein no livro Uma Breve História das Mentiras Fascistas.

Há, por fim, especialistas que falam em banalização ou exageros no uso do termo.

Para o jornalista e escritor conservador americano Paul Gottfried, no livro Antifascismo, termos como fascista e nazista são usados atualmente pela esquerda como instrumento de propagação do medo para manutenção de interesses dos poderosos, como políticos, jornalistas e acadêmicos que pretendem intimidar e isolar adversários políticos.

Fonte: BBC


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