Os três meses da busca aflita pela gata Khaleese

Certos afetos a gente só entende quando conta a história. É o caso do amor entre uma gata de rua e seu cuidador, que mobilizou Natal nos últimos meses. O único jeito que encontrei de expressar o sentimento que aflora dessa relação é relatar os eventos que seguem.

A história da busca pela gata Khaleese, que desapareceu após ser deixada com uma cuidadora em Parnamirim, mobilizou uma verdadeira força-tarefa na cidade. O cuidador da gata, Ionaldo Morais, é um petroleiro e ativista pelos direitos animais, que se autointitula abolicionista. Ele contou que adotou Khaleese após encontrá-la escondida em um terreno baldio, onde ele colocava comida para outros gatos.

As buscas por Khaleese foram intensas e contaram com o apoio de muitas pessoas da cidade. Foram feitas panfletagem, colagem de cartazes e caminhadas a pé. Circulou um carro de som pelas ruas do bairro.

Ionaldo conta que a cuidadora da gata, Jaqueline, não estava em casa no momento em que ele deixou Khaleese com ela, e foi recebido por dois adolescentes. Ao retornar de sua viagem, ele descobriu que Khaleese havia fugido, e iniciou sua busca incansável.

“Quase todo dia tinha um alarme falso. Gente que via um gato preto e branco e achava que era ela. Olhei câmeras de segurança, falei com vigias de rua. Oferecemos recompensa e fizemos até outdoors”, conta Ionaldo. Ele por vezes acordava no meio da madrugada para correr atrás de uma pisa que poderia levar a sua companheira perdida.

Muita gente consegue fazer uma ligação da minha Khaleese com a Khaleese Daenerys Targaryen, de GOT. Na coragem, beleza e capacidade de sobrevivência com certeza tem ligacão. Especialmente na sua jornada para conquistar seu trono.

Ionaldo Morais,
amigo de Khaleese

Pela manhã, a sensação de que faltava algo o atormentava. Tomava seu café com amargor, conta. Ia para o trabalho infeliz, como se devesse estar em outro lugar, à procura de Khaleese.

Ionaldo Morais passou ainda semanas à procura de sua gata desaparecida. Contou com a ajuda e apoio de sua esposa, amigos e até de estranhos, que se comoveram com sua história e se ofereceram para ajudar na busca, mesmo que isso significasse arriscar a própria segurança, caminhando em ruas escuras e terrenos baldios em Parnamirim até altas horas da noite. A Doghero também esteve presente nos esforços para encontrar Khaleese.

Foi na noite de terça-feira, 18 de abril, que ele recebeu uma mensagem no WhatsApp de Maria Miriam, informando que Khaleese estava em um sítio próximo ao Motel Aconchego, perto da casa de Jaqueline. Miriam compartilhou fotos que confirmavam ser realmente Khaleese.

Miriam já havia tentado capturar Khaleese sem sucesso e havia informado a pessoa que cuidou da gata durante seu desaparecimento. No entanto, essa pessoa nunca entrou em contato com Ionaldo. Conforme os dias passavam, Khaleese começou a sair do sítio em busca da comida que Miriam colocava para outros gatos. Jaqueline alegou a Miriam que acreditava que Ionaldo não queria mais a gata, já que muito tempo havia se passado.

Miriam pediu várias vezes o número de telefone de Ionaldo a Jaqueline, que se recusava a fornecê-lo. Determinada, Miriam conseguiu o número com outras pessoas e entrou em contato. Com a ajuda de Alexandre, que além de alimentar Khaleese durante todo esse tempo, cedeu sua casa, academia, loja de pet shop e todo o apoio necessário, Ionaldo tentou, sem sucesso, resgatar Khaleese na terça-feira à noite.

Havia muita gente por perto e a gata estava assustada.

Na noite de quarta-feira, Ionaldo voltou ao local, acompanhado apenas por Alexandre. Ele colocou um sachê de comida em uma tigela e sentou-se ao lado. Khaleese se aproximou, mantendo uma distância cautelosa de cerca de dois metros. Depois de algum tempo, ela levantou a cabeça, olhou para Ionaldo, miou e, reconhecendo seu cuidador, correu em sua direção.

O emocionante reencontro de Ionaldo e Khaleese foi um momento de alívio e alegria para todos os envolvidos na busca pela gata perdida.

“Aí foi só pegar ela no colo. Fiquei comovido quando ela começou a me lamber e a roçar seu rosto no meu. Estávamos juntos de novo”, ele recorda.

Claro que a esta altura, várias outras pessoas já haviam se reunido para observar a cena. “Quando a peguei no colo as pessoas que observavam de longe comemoram como um gol”, diz Ionaldo.

Ionaldo não consegue esconder a emoção ao relatar os momentos seguintes. “Ao chegar em casa ela saiu da caixa respeitosa, mas logo que reconheceu a casa foi um surto de euforia. Ela cheirava e corria e depois se jogava aos meus pés, passou toda a noite brincando e perto de mim, pedindo carrinho.”

Khaleese já voltou a arranhar discretamente os estofados de seu lar e a se enrolar nas pernas do amigo e cuidador. Ionaldo ainda olha para o quintal meio receoso, marcado pelo longo de tempo de separação, pelas dúvidas sobre o estado de sua amiga.

Um final feliz, sim, mas que deixa uma ponta de angústia dando à história um desfecho agridoce.