Quem viu, viu: a UMES Natal acabou de fazer história mais uma vez

Em meio a necessários protestos contra as medidas recentes do Governo Bolsonaro que, em seu ocaso, bloqueou os recursos das instituições federais de ensino, afetando especialmente o orçamento de assistência estudantil de mais de 200 mil bolsistas, um outro evento já marcou seu lugar na história do movimento estudantil norte-riograndense: foi a solenidade que comemorou…

40 anos em uma foto. Todas as gerações da UMES Natal estiveram presentes no evento.

Em meio a necessários protestos contra as medidas recentes do Governo Bolsonaro que, em seu ocaso, bloqueou os recursos das instituições federais de ensino, afetando especialmente o orçamento de assistência estudantil de mais de 200 mil bolsistas, um outro evento já marcou seu lugar na história do movimento estudantil norte-riograndense: foi a solenidade que comemorou os 40 anos de fundação da União Metropolitana dos Estudantes Secundaristas de Natal.

O feito maior dessa atividade não foi apenas o registro da data ou da importância da entidade; isso nós já vemos de tempos em tempos, nos congressos, nos atos e nos variados fóruns que reforçam o peso histórico dessas organizações. Só que, indo além de tudo isso, ontem vimos um raro momento de encontro de gerações. Com o comparecimento de mais de dez ex-presidentes e mais de uma centena de militantes históricos de todas as épocas, a solenidade realizada no Auditório da Reitoria do IFRN talvez tenha sido o evento mais importante de resgate à história do movimento secundarista no RN.

Segundo o militante histórico Almir Ribeiro, esse evento “abriu uma janela de afetos, de esperanças, e de vontade de estar novamente juntos”. De fato, muitos antigos quadros que hoje não mais militam em nenhum campo sentiram aquele brio, aquele desejo de luta. Não à toa, uma das falas mais empolgadas na mesa de abertura da cerimônia foi a de Itamar Maciel Jr., que, mesmo representando o meio empresarial (ele é presidente do Conselho Deliberativo do SEBRAE e vice-presidente da Confederação das Associações Comerciais do Brasil), reforçou o espírito de combatividade que tinha em sua época de secundarista, destacando, em especial, o fato de que era rara a presença de mulheres na UMES nos primeiros anos (em sua gestão, havia apenas uma diretora) e hoje, felizmente, não só elas estão presentes como têm protagonizado muitas lutas recentes.

A solenidade, que se converteu num verdadeiro ato político contra toda forma de opressão, contou com momentos bastante emocionantes. Um deles foi com os relatos dramáticos de Cláudio Damasceno, fundador e primeiro presidente da UMES, que contou como ocorriam as perseguições à sua pessoa, chegando a ameaças de morte e batidas policiais em grêmios estudantis, como o do Atheneu; isso porque quando a UMES foi fundada, em 1982, a ditadura, embora enfraquecida, ainda estava em vigor. O general João Figueiredo ainda governaria o país por três anos até ser sucedido por um civil.

Outro momento emocionante foi o relato apaixonado de Walter Jr, acompanhado de voz embargada e gestos impulsivos, mas tudo coerente quando se percebe a fala de um militante, de alguém que mantém o mesmo espírito rebelde da juventude. WJ, como é conhecido, reforçou como mesmo hoje, em tempos bolsonaristas, é preciso desafiar a ordem instituída. E fez um convite inusitado aos jovens: desobedeçam. “A escola existe para ensinar a obedecer, mas o movimento estudantil tem outra função”, disse ele, destacando aquele ensinamento que só absorveu quem foi além da sala de aula: certas coisas se aprende mais nas ruas e nas praças do que nas carteiras escolares.

Os presidentes das últimas gestões também não fizeram feio: Pedro Gorki, por exemplo, fez questão de trazer o lado poético que caracteriza o militante de uma causa: trouxe as palavras do romancista tcheco Milan Kundera, quando ele afirmou que “a luta do homem contra o poder é uma luta da memória contra o esquecimento”. Depois dele, Camila Fernanda, última presidente, finalizou o evento em grande estilo comemorando o fato de sua gestão na UMES (dividida com Silas Emanuel, que renunciou) está se encerrando cumprindo um dever histórico de resgatar a memória da entidade.

Qualquer relato sobre o evento é arbitrário e dificilmente cobriria tudo o que aconteceu. Podíamos falar mais do relato forte de Ionaldo Morais sobre o racismo que estava ainda presente no movimento estudantil nos anos 1990; na empolgante defesa da liberdade sexual como mãe de todas as liberdades de Ridalvo Felipe; no registro marcante que Gabriela Terto fez de sua gestão, a primeira em que uma mulher presidiu a entidade. Poderíamos falar também da presença dos dirigentes atuais da UMES e da UBES, como Rafael Freitas e Stephany Caroline, respectivamente, que realçaram outros fatos inéditos como a presença de trans em papeis de liderança, coisa que inexistia no passado. Também poderíamos lembrar de todos os convidados que, representando outras entidades, reforçaram também a importância da UMES para a formação e qualificação dos jovens quadros políticos do estado — isso reforçado inclusive pelas jovens lideranças parlamentares, como as vereadoras Brisa Bracchi e Divaneide Basílio, ambas do PT. Outros não puderam ir, como Rafael Motta, que ainda assim enviou suas saudações.

Porém, não podendo falar de todos, encerramos falando de José Arnóbio, Reitor do IFRN, que foi personagem central de uma intensa luta empreendida pelo movimento estudantil pelo direito de ter um reitor eleito pela comunidade. Essa luta foi tortuosa, porém vitoriosa, e tende a crescer: Arnóbio destacou a articulação nacional que foi construída para derrubar as 24 intervenções de Jair Bolsonaro — muitas ainda continuam de pé. Tudo isso torna o local, a Reitoria do IFRN, como fortemente simbólica para a realização desse ato.

Finalmente, não podíamos esquecer da Revista da UMES… um verdadeiro mergulho em 40 anos de história do movimento estudantil potiguar, que se confunde com a própria história do estado e do país. Tantas lutas, tantas caras pintadas, tantas palavras de ordem. Se você não conheceu, conheça. Em cada escola, essa revista deve estar presente. Se você preferir uma versão digital, confira aqui. Esse material já nasce como um dos maiores documentos históricos já feitos sobre um período ainda pouco explorado pelos historiadores e analistas.

Esse foi o resumo do que aconteceu. Quem viu, viu. Quem não viu, pode conferir os registros em fotos e vídeos nos tantos canais virtuais. Mas, mais do que isso — pode vir a conferir os frutos desse megaencontro nas ruas. Porque se tem algo que faz sentido depois dessa atividade é que a luta deve continuar.


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