Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick (Inglaterra, 1971)

Stanley Kubrick fez de Laranja Mecânica um dos maiores clássicos do cinema. Um filme imperdível cuja estética ainda influencia gerações de cineastas. Direção: Stanley Kubrick Com: Malcolm McDowell (Alex DeLarge), Patrick Magee (Frank Alexander), Michael Bates (Chefe Barnes), Warren Clarke (Dim), Adrienne Corri (Sra. Alexander), Carl Duering (Dr. Brodsky), Paul Farrell (Tramp), Clive Francis (Lodger),…

Direção: Stanley Kubrick
Com: Malcolm McDowell (Alex DeLarge), Patrick Magee (Frank Alexander), Michael Bates (Chefe Barnes), Warren Clarke (Dim), Adrienne Corri (Sra. Alexander), Carl Duering (Dr. Brodsky), Paul Farrell (Tramp), Clive Francis (Lodger), Michael Glover (Diretor do presídio), James Marcus (Georgie), Aubrey Morris (P.R. Deltoid), Godfrey Quigley (Chaplain)

Quando soube que jovens ingleses estavam imitando o visual e os hábitos da gangue liderada pelo protagonista de seu Laranja Mecânica, Stanley Kubrick requisitou que todas as suas cópias fossem retiradas de circulação no Reino Unido, no que foi atendido pela distribuidora.

Talvez Kubrick não imaginasse o quanto a sua realidade presente estava próxima daquela que ele retratou como pertencendo ao futuro (o filme foi rodado em 1971, se passando em meados da década de 90). A banalização da violência e seu cultivo como lazer ou meio de vida desde muito permeiam o mundo ocidental. Laranja Mecânica vai longe nessa análise quando justapõe imagens de uma estátua de Cristo estigmatizado numa montagem na qual ele parece dançar ao mesmo som que embala a agressão que transcorre na cena – um trecho muito popular da abertura de Guilherme Tell, de Rossini.

As imagens construídas são deslumbrantes. O visual que atraiu as gangues juvenis do Reino Unido é forte e impactante. Vemos ao longo de todo o filme cenários de cores vivas, ambientes mortos e decadentes, trajes sofisticados e complicados e mendigos maltrapilhos. O contraste visual permeia toda a obra. O mesmo contraste é utilizado para expor o tema e a análise do filme.

Alex é o líder de uma gangue do futuro, ele e seus parceiros têm uma movimentada vida de crimes e violência numa época onde parece existir muitos núcleos sociais com os mesmos propósitos seus. Eles desenvolvem entre si uma relação sádica, a mesma que têm com as pessoas à sua volta.

O retrato que o filme faz do gosto artístico da então época futura traz pinturas eróticas de gosto bem discutível e muitas esculturas fálicas ou côncavas. Tem grande semelhança com a sátira de Monty Python em seu filme O Sentido da Vida quando um cantor de restaurante canta uma música que enaltece o órgão sexual masculino.

Os filmes de Kubrick são reconhecidos por suas excelentes trilhas sonoras. A nona de Beethoven tem uma função essencial no filme. Para muitos é um sacrilégio pô-la como inspiração de um jovem delinquente. Mas nada em Laranja Mecânica é gratuito. A violência de que o filme trata não é aquela gerada pela miséria e pela exclusão social, pelo contrário, é a violência que gera e intensifica as mazelas da sociedade moderna. É uma violência sofisticada e precisa de uma trilha sonora à altura.

Os personagens do filme são em geral ou cruéis ou fracos ou sórdidos. A vida humana é tratada como um utensílio qualquer e manipulada ou violentada de acordo com os humores de indivíduos que se julgam no direito de impor seus desejos e métodos aos demais. Não se trata de ausência de valores, mas de um tipo de valor onde o respeito à vida humana tem muito baixa cotação. A gangue de Alex DeLarge violenta pessoas por puro hedonismo. O intelectual por não crer na justiça legal, resolve fazer a sua própria como vingança e dispõe de uma vida para atingir seus objetivos políticos. O governo com ares de totalitarismo que é retratado no filme, tortura e condiciona indivíduos para atingir seus objetivos no combate à criminalidade e abrir mais espaço nas cadeias para os presos políticos. Esse é ciclo de Laranja Mecânica.

A violência que gera a exclusão e a miséria, a violência que engendra o conjunto de nossas mazelas sociais é a violência da negação liberdade, do engodo, da riqueza e da posse (enfim, do poder) acima da vida e da dignidade humanas. É essa violência que salta da tela enquanto o ministro dá comida na boca de Alex e este sorri, sabendo que pouco importam seus atos, mas sim a quem caberá a premissa de julgá-los. Afinal, ele descobre que um estuprador e assassino pode até mesmo ser útil quando uma sociedade possui ameaças como pessoas que defendem suas opiniões e publicam panfletos clandestinos.

À primeira vista eu diria que Laranja Mecânica é um filme pessimista. Mas olhando bem, vê-se que ao projetar aquela realidade para um futuro possível, o filme dá a entender que ainda não havíamos chegado a tal ponto e que haveria alternativa. 1994, o ano do futuro em que se passa o filme já chegou e passou. E as coisas não foram tão claras quanto Kubrick previu. Talvez aí resida o otimismo deste filme fantástico.


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