Mera Coincidência, de Barry Levinson (EUA, 1997)

Que filme! Não bastasse o roteiro inteligente, o elenco tem atuação formidável. Um filme realmente imperdível. Dirigido por Barry Levinson Com Dustin Hoffman, Robert De Niro, Anne Heche, Dennis Leary, Willie Nelson, William H. Macy, Woody Harrelson, Kirsten Dunst, Craig T. Nelson NÃO DEIXE DE LER A RESENHA COMPLETA!

Diretor: Barry Levinson
Com: Dustin Hoffman, Robert De Niro, Anne Heche, Dennis Leary, Willie Nelson, William H. Macy, Woody Harrelson, Kirsten Dunst, Craig T. Nelson

Mera Coincidência foi lançado em 1997, às vésperas da crise que envolveu o então presidente americano Bill Clinton, sua estagiária e seu charuto. Conta a história de um processo eleitoral onde o presidente dos EUA, candidato à reeleição e liderando todas as pesquisas, é envolvido num “meramente coincidente” escândalo. Na tentativa de evitar uma reviravolta no resultado da eleição – que ocorreria dentro de 11 dias – o personagem de De Niro, Sr. Brean, é convocado para entreter a mídia, tirando o incidente presidencial de foco.

Sr. Brean recruta um produtor de Hollywood chamado Samuel Motss (Dustin Hoffman) para que este “produza” uma guerra, a fim de criar o entretenimento necessário até a eleição. A partir daí, o filme nos mostra como uma guerra fictícia é criada e rapidamente passa a ocupar os noticiários. De forma clara, o filme nos diz o que está acontecendo através do personagem de De Niro, que sobre a guerra que ele inventou, declara É verdade, eu vi na TV.

Numa eloquente série de sequências, Levison nos mostra como a guerra fictícia à Albânia vai desencadeando diversas outras ações – que habilidosamente concatenadas – criam um clima de mobilização pra guerra ao desconhecido país do leste. E quando o conflito é encerrado, mesmo nunca tendo existido, rapidamente surge um soldado, que “deixado para trás”, torna-se herói nacional. Ele ganha a alcunha de Sapato Velho, e no outro dia, vê-se nas ruas camisetas com mensagem de apoio ao soldado, manifestações públicas, música e… sapatos velhos!

O nascimento e morte de Sapato Velho serve como demonstração da adaptabilidade e engenhosidade da fraude. Através dele, o autor nos mostra que por mais que a situação real fuja do controle, a versão que irá a público através da grande mídia – e portanto, a que será tida como verdadeira – pode sempre ser manipulada e reformulada, a fim de continuar a mesma, servindo aos mesmos interesses.

Agora sim coincidentemente, o filme traz uma irônica semelhança aos fatos que ocorreriam anos depois. Tendo sido eleito num processo muito questionado, George Bush, o segundo, disputaria a reeleição com baixa popularidade e vindo de um governo com pouca legitimidade. Mas os ataques de 11 de setembro – não aqueles financiados pela CIA no Chile, que na década de 70 assassinou Salvador Allende, mas os de 2001, em solo americano – deram ao desmoralizado Bush o pretexto para uma onda de guerras preventivas, estas com balas, mísseis e mortos de verdade.

As semelhanças entre a guerra do filme e a de Bush vão além do fato de ambas terem elevado a popularidade de presidentes com a reeleição em risco. A mentira esteve presente em ambas. Se na primeira, tudo era mentira, o que ao menos reduz os danos, na segunda, as armas de destruição em massa que serviram de motivo à invasão do Iraque nunca existiram, mas foram amplamente noticiadas por toda a grande imprensa. Na premiação do Oscar, o documentarista Michel Moore disse Vivemos na mentira, temos um governo de mentira, que nos levou a uma guerra de mentiras, baseada e justificada por mentiras.

O filme foi rodado durante miúdos 29 dias do ano de 1997, num período onde o cinema norte-americano vê – em seu quintal – surgir um novo e crítico jeito de fazer filmes. Filmes B ou da Nova Linha do cinema americano, muitos rodados com curtos orçamentos, vêm nos oferecendo um novo panorama do passado e da atualidade. Fazem parte deste novo cinema os precursores filmes de Oliver Stone, obras audaciosas como A Outra História Americana, dentre outras.

Mera Coincidência trata de como o poder manipula as informações, de como as verdades que vemos nos tele-jornais são forjadas, ao gosto e interesse daqueles que detêm os meios de divulgá-las. A câmera percorre as cenas como se se tratasse de um documentário, em determinados momentos parecemos estar assistindo ao jornal televisivo. Dessa forma, o diretor vai expondo os métodos e técnicas que tornam verossímeis as notícias, utilizando-os em sua crítica.

Um momento fantástico do filme se passa durante a gravação de uma música que fala da defesa de nossas fronteiras e da necessidade de lutar pra preservar o sonho americano. O sentimento nacional e a propaganda ufanista são desmascarados de forma contundente, até dramática, enquanto os cidadãos choram. Bem diferente da visão apresentada num recente filme de Gabriele Muccino.

Em À Procura da Felicidade – o filme de que falamos acima – nós podemos ver a história do mito americano por sua própria ótica. A superação do indivíduo, sublimada e reforçada pela miséria das massas. Nele nós vemos o sonho americano justificar a realidade americana. Em Mera Coincidência ocorre o oposto. Aqui, é a realidade americana que explica o sonho americano e o seu tão defendido modo de vida.

O mito, o midiático é desnudado pelas lentes do nosso filme. Como o protagonista de Um Dia de Fúria, que reclama um sanduíche igual ao da foto, nós nos sentimos enganados ao perceber que diariamente somos alimentados de mentiras e empulhações. A realidade – o filme nos conta – não é bem aquela a que assistimos.

De forma envolvente, somos ganhos pela trama que ele apresenta. Mas logo percebemos que Mera Coincidência vai bem além da aparência, que sua história possui mais de um nível. Seu maior mérito – e o fato pelo qual tornou-se mais atual após o 11 de setembro – é que ele não se restringe à crítica de um fato, avança e analisa todo um sistema e suas regras. Por isso, seu ponto de vista foi confirmado pela Guerra do Iraque. Não porque a previu, mas porque soube universalizar a crítica, indo muito além das coincidências.


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