Violência no futebol nem vem de ontem nem acaba logo

Quem quiser simular espanto que o faça. A mim, causa espanto a renovada surpresa com que recebemos as notícias de novos casos de violência no contexto do futebol, como as de ontem, após nova derrota do ABC, que segue na lanterna da série B. O futebol já foi mais relevante em nossa cultura e sociedade.…

Quem quiser simular espanto que o faça. A mim, causa espanto a renovada surpresa com que recebemos as notícias de novos casos de violência no contexto do futebol, como as de ontem, após nova derrota do ABC, que segue na lanterna da série B.

O futebol já foi mais relevante em nossa cultura e sociedade. Os índices de adesão e consumo do esporte demonstram seu declínio lento mas constante no cotidiano da população, talvez em partes suprido pela futebolização da política.

Ainda assim, trata-se de uma das atividades com mais inserção nos hábitos e valores de nosso país. E como grande negócio que é, as marcas – times – precisam angariar e engajar consumidores – torcedores.

Contudo, no mercado da bola o produto à venda não tem especificações técnicas precisas, os valores vultuosos são abstrações incompreensíveis e o consumidor espera muito mais que simples entretenimento.

Assim, os clubes criam grandes expectativas em torno de suas gestões e negócios. Os torcedores depositam no sonho da glória esportiva as frustrações de uma vida marcada pela imobilidade social e econômica.

Mas nada disso levaria à casadinha esporte/violência, necessariamente.

Há um claro fator cultural, diria até atávico, que une o esporte à violência. Roland Barthes já argumentava que o esporte, assim como a guerra, envolve a competição, a busca pela vitória e a construção de identidades coletivas. O diferencial está em que o esporte canaliza essas energias competitivas para um campo delimitado e regulamentado, onde as regras são estabelecidas e os resultados são determinados dentro de um sistema controlado.

O esporte, segundo Barthes, oferece uma alternativa simbólica à guerra, permitindo que as sociedades expressem e exerçam sua competitividade, rivalidade e agressividade de forma não violenta. Ele descreve o esporte como uma espécie de simulacro da guerra, uma atividade que imita e reproduz elementos dos conflitos bélicos, mas de maneira limitada e contida.

Ao encenar esses conflitos de forma controlada, o esporte fornece um espaço socialmente aceito para a expressão das tensões e rivalidades presentes na sociedade. Em nosso contexto, sobretudo o futebol cria um senso de identidade coletiva e pertencimento, onde os torcedores se alinham com equipes e competem simbolicamente através delas.

E daí? E daí que, em uma sociedade estruturada por antagonismos e disparidades sociais gritantes, o potencial descontrole dessas forças subjetivas coletivas é uma regra, mais que uma exceção.

Ah, mas você está passando pano para os grupos organizados que promovem a violência no futebol! Acaba sendo mesmo esse o risco da relativização do fenômeno. Mas o ponto ao qual quero chegar não é o da culpa, e sim o dos estímulos.

Removam a cabeça dessa serpente que, como uma Hydra, duas nascerão. É por isso que todas as ações reativas diante dos renovados episódios de violência envolvendo o futebol são ineficazes a longo prazo. E o que fazer? Até onde posso enxergar, só podemos continuar a fazer mais do mesmo: apagar um incêndio por vez e fingir surpresa no próximo. Somos uma sociedade violenta, e o futebol – apesar de toda a sua relevância em nossa cultura – não possui os meios para mudar isso. Ele já faz muito pela causa ao pôr nossos gladiadores modernos numa arena cercada e policiada.

Enfim, fica aqui mais papo acadêmico que não nos levará a nada.


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